O frenesi em torno do objeto interestelar 3I/Atlas estraga algo que, em princípio, seria fascinante. Começo sendo estraga-prazeres: não vai bater. Não são alienígenas. Quando essas hipóteses são levantadas por aí, sua posterior (e inevitável) refutação acaba esvaziando o interesse sobre esses intrigantes vagabundos do zoológico cósmico, que merecem sim a nossa atenção.
Pense bem: o estudo “de perto” (em termos astronômicos) de astros que tiveram origem fora do nosso Sistema Solar e estão só de passagem por aqui oferece uma janela de oportunidade para estudar a incrível diversidade existente nos processos de formação planetária.
Afinal, esses andarilhos do Cosmos nada mais são que tijolos remanescentes do processo que deu origem a outros mundos em torno de outras estrelas. Sistemas planetários, sobretudo em sua fase formativa, são bagunçados, com pedregulhos voando para todo lado. Se algum deles passa perto demais da estrela-mãe, ou de um planeta gigante, e sobrevive ao encontro, ganha uma estilingada gravitacional que pode atirá-lo para fora do sistema –da mesma forma que as sondas Voyager ganharam estilingadas de Júpiter para deixar o Sistema Solar.
Não surpreende, portanto, que alguns passem por aqui. Mais surpreendente (mas cada vez menos) é que os descubramos em suas rápidas passagens, a tempo de observá-los. Até agora pegamos três, e todos foram interessantes, cada um a seu modo.
O primeiro, 1I/’Oumuamua, de 2017, com seu formato alongado, chamou demais a atenção. Todo mundo queria entender como ele acabou parecendo um charutão, e até agora como um mistério, porque ainda não tivemos chance de observar outros iguais.
O segundo 2I/Borisov, de 2019, foi o mais careta dos três, mas importante porque representa o que esperávamos de um típico objeto desses –jeitão de cometa, sem tirar nem pôr.
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O terceiro é a bola da vez, o 3I/Atlas, de 2025. E que bola. É o maior até agora, com um diâmetro que pode beirar 1 km e é incomumente rico em dióxido de carbono –composição que indica que ele foi formado numa região muito fria, algum cafundó de um sistema planetário por aí, bilhões de anos atrás (estimam uns 7, o que daria a ele mais idade que o Sistema Solar, com seus 4,5). Além de tudo, é o mais rápido já visto (mas ainda lerdo demais para um disco voador que se preze).
Ele tem sido observado atentamente pelos astrônomos, que acompanham sua trajetória conforme a aproximação do Sol vai degelando-o e produzindo jatos que alteram seu caminho, como se fossem foguetes naturais. Mas são pequenos desvios, nada que possa fazê-lo cair aqui.
O periélio, ponto de máxima aproximação do Sol, ocorreu na quarta (29), mas não foi lá uma grande coisa, passando mais longe dele do que a Terra costuma ficar. Por sinal, em 19 de dezembro ele fará a aproximação máxima do nosso planeta, também nada impressionante, quase duas vezes a distância Terra-Sol. Se, em vez de ser um objeto natural, ele fosse uma espaçonave, teríamos de calçar as sandálias da humildade. Ele já passou muito mais perto de Marte e vai passar mais perto de Vênus e de Júpiter do que passará daqui. Nosso planeta é sem graça, pelo visto. Talvez porque a gente tire a verdadeira graça das coisas criando fábulas sobre elas.
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Fonte ==> Folha SP – TEC