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Convergência e diferenciação moldaram o Deus bíblico – 24/09/2025 – Darwin e Deus

A imagem mostra uma estátua de um personagem humano sentado, feita de metal. O personagem tem um rosto expressivo, com um nariz proeminente e olhos grandes. Ele usa um manto longo e possui um chapéu ou coroa alta. Em uma das mãos, ele segura um objeto, possivelmente um cetro ou bastão. A estátua está sobre uma base de madeira e é exibida em um ambiente de museu, com outros objetos visíveis ao fundo.

Neste quinto capítulo da nossa série Como Deus nasceu, um apanhado dos estudos sobre a origem dos três grandes monoteísmos (judaísmo, cristianismo e islamismo), faremos uma breve virada conceitual, com base em ideias defendidas por especialistas como o americano Mark Stratton Smith. Hoje professor de Literatura do Antigo Testamento e Exegese do Seminário Teológico de Princeton, Smith é autor de obras como “História Primitiva de Deus” e ajudou formular o conceito-chave de nosso texto de hoje: o processo complementar de convergência e diferenciação.

Antes de mais nada, porém, caso você não tenha acompanhado os capítulos anteriores, eis os links para todos os que já saíram:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Conforme já vimos por aqui, os israelitas muito provavelmente tiveram sua origem como povo (ou “etnogênese”, como dizem os antropólogos) a partir de grupos falantes de idiomas semíticos que já viviam na antiga terra de Canaã —os atuais territórios de Israel, da Palestina, da Jordânia e do Líbano, principalmente— no fim da Idade do Bronze. Isso significa que eles quase certamente estavam familiarizados com o panteão (conjunto de deuses) adorado pelos cananeus e registrado em textos como os da antiga cidade mercantil de Ugarit.

É possível que a divindade conhecida como Iahweh/Javé, originalmente adorada em territórios desérticos ao sul, como o Sinai e a Arábia, tenha sido acrescentada a esse panteão em algum momento do início da Idade do Ferro (a partir de 1.200 a.C.).

A hipótese de Smith e outros pesquisadores é que a figura de Iahweh foi moldada pela lógica aparentemente contraditória da convergência e da diferenciação em relação aos deuses mais antigos do panteão cananeu. Em termos históricos, a convergência —ou seja, a incorporação de elementos dessas divindades na formulação de um Iahweh cada vez mais importante para a religião israelita primitiva— talvez tenha vindo primeiro. Já a diferenciação, ou seja, a distinção cada vez mais radical entre Iahweh e os deuses antigos de Canaã, culminando com a visão de que eles não passariam de estátuas inertes de pedra e madeira, sem poder espiritual nenhum e sem realidade própria, pode ter ganhado força mais tarde. Ao menos em suas versões mais radicais, sabemos que se trata de algo bastante tardio na história da religião israelita.

Os dados que corroboram o processo de convergência são numerosos. Podemos começar com o próprio nome do povo de Israel. Ele contém o “sufixo teofórico” —ou seja, uma partícula que remete a um nome divino— que equivale ao nome de El. Como vimos, trata-se do grande patriarca divino do panteão de Ugarit e de Canaã como um todo. Nomes teofóricos com o “sufixo” do nome de Iahweh são comuns na cultura israelita, mas, curiosamente, eles só parecem se tornar comuns do meio da Idade do Ferro em diante (mais ou menos a partir de 900 a.C.) —na forma aportuguesada, são os nomes terminados em “-ias” (Isaías, Ezequias, Josias etc.). Há quem brinque que, se não houvesse essa ligação com o deus El, o nome de Israel seria “Israías”.

A própria narrativa dos livros do Gênesis e do Êxodo parece apontar que houve essa mudança no “nome social” divino, por assim dizer. “Eu sou Iahweh”, diz Deus a Moisés no começo do capítulo 6 do Êxodo. “Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó [os ancestrais dos israelitas] como El Shaddai [grifo meu], mas meu nome, Iahweh, não lhes fiz conhecer.” Tradicionalmente traduzido como “Todo-poderoso”, o epíteto “Shaddai” tem etimologia original incerta, mas aparece nas narrativas do Gênesis junto com outros aparentes nomes divinos de El, como El Elyon (talvez “Deus Altíssimo”).

Alguns dos textos poéticos da Bíblia considerados de origem mais antiga por suas características linguísticas também associam o Deus israelita a traços do deus El cananeu, como sua associação com touros, com a fertilidade e sua morada em tendas, equivalente ao Tabernáculo que abrigava a Arca da Aliança durante as andanças dos israelitas pelo deserto após saírem do Egito.

Mas talvez a mais importante convergência de Iahweh seja com a figura de seu “arqui-inimigo”, o deus da tempestade Baal. Esse será o tema do nosso próximo episódio. Até lá!



Fonte ==> Folha SP – TEC

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