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Existe anistia no inconsciente? – 02/10/2025 – Opinião

Multidão vista de cima rodeia uma grande bandeira do Brasil estendida no chão. No centro da bandeira, onde normalmente está a faixa com o lema nacional, há uma faixa branca com a palavra

Fazer justiça com as próprias mãos não se demonstrou uma boa ideia civilizatória. A ética da vingança não funciona a longo prazo: um clã se vinga do outro, que se vinga de um, que se vinga do outro, numa espiral de violência infinita.

Mas a ética do perdão milagroso também não nos leva muito longe. Não conseguimos apagar coisas ou fingir que algo que nos fez mal não aconteceu. Então, qual a solução?

Nossas ideias sobre o que é o mundo, como viver em sociedade e como fazer justiça vão mudando com o passar do tempo. E vamos aprendendo com a experiência. E assim introjetamos nossos modos de sentir e atuar sobre o mundo —o inconsciente transindividual e coletivo que partilhamos como espécie humana.

O detalhe é que as novas ideias vão sendo arquivadas na nossa mente junto com as antigas. E muitas vezes entramos em conflito, frequentemente um conflito consigo mesmo. E invariavelmente há conflito em todos os agrupamentos: na família, na sala de aula, no condomínio, no trabalho, no país.

Se alguém desobedece à lei e pratica algum mal, o combinado básico é que cada um abra mão do seu impulso de vingança e denuncie a situação. O coletivo é que vai tomar as rédeas: colocar no trilho o “devido processo legal”, escutar todos os lados, cotejar com a lei e julgar.

Isso só funciona porque temos uma boa dose de confiança nesse sistema. O frágil equilíbrio civilizacional se apoia em cada um conter suas emoções e se submeter às regras pactuadas coletivamente.

Cá entre nós, é um processo hercúleo. E demorou muito tempo para a gente chegar aqui. Afinal, no caminho da maior civilidade precisamos refrear nossas pulsões agressivas (e várias outras).

O que está acontecendo hoje é uma desconfiança generalizada nesse pacto basal. Em todos os níveis, do indivíduo às organizações globais, estamos adotando uma nova postura subjetiva: sinto muito, estou fora (do combinado).

O primeiro problema disso é que cresce a naturalização de uma vida “fora da lei”. Estamos acima ou no submundo da lei. E assim se infiltram o crime organizado e o dinheiro lavado nas instituições. E assim se naturalizam as invasões de territórios e espaços aéreos. Assim se amplia a metástase de uma nova lógica: combinar e descumprir.

E, inclusive, vou declarar anistia. Vamos pacificar tudo: esquecer, apagar, lavar o sangue da escada, de forma ampla, geral e irrestrita. E, aproveitando, vamos nos blindar melhor: eu e os coleguinhas decidimos aqui no grupinho secreto o que pode ou não virar crime.

Sensacional! É o retrato perfeito da fantasia infantil pré-edípica (e perversa) de estar acima da lei.

O detalhe é que a função da família, da escola e do parquinho é justamente barrar nossos impulsos sociopatas para construir a tal civilização. Lembra o circuito? Recalque de nossos anseios tirânicos (sim, todos temos), mal-estar diante disso (sim, todos sentimos) e erguer uma sociedade respirável (sempre à beira do precipício, dada a força dessas fantasias).

Por isso, o que nos resta é arregaçar as mangas e, conscientes do risco contínuo, continuar a trabalhar pela lei simbólica coletiva, a coisa menos sanguinária que inventamos até aqui.

A história não perdoa. Se a gente finge que resolve e coloca tudo embaixo do tapete, as estruturas retornam mais e mais. Sabemos: a violência do recalque é proporcional à violência do retorno do recalcado.

Temos, como nação, traumas históricos a elaborar que, se escanteados, se repetem à exaustão. Temos uma série de golpes e tentativas de golpes. Uma lógica de semiescravidão, opressão e desigualdade obscenas. Uma sociedade malandra e “na borda da lei” (borderline?) em todas as instâncias, em todos os partidos, em todos os níveis públicos e privados.

E não, não existe anistia, blindagem, apagamento mágico que se sustente. Se continuarmos na impunidade que nos espreita continuamente, não sairemos do lugar.

Além de se colocar como um player relevante na Assembleia da ONU, o Brasil deu um exemplo ao mundo —e isso é The Economist, Le Monde e New York Times falando—, um exemplo de coragem e civilidade.

Sabemos que forças contrárias estão sempre prontas para desmontar uma jovem democracia. Mas é hora de sustentar nossa relevância no planeta e poder servir de farol nesta importante encruzilhada.



Fonte ==> Folha SP

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