Era evidente, na primeira metade do governo, que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus correligionários criavam uma armadilha para si mesmos ao satanizar o Banco Central, então sob uma direção majoritariamente indicada por Jair Bolsonaro (PL), e fazer da política de juros um bode expiatório para qualquer mazela da economia.
Tal estratégia imporia à administração petista duas opções inglórias: ou nomear para o BC adeptos das teses do partido —o que muito provavelmente resultaria mais uma vez em descontrole de preços— ou preferir quadros dispostos a fazer o necessário para cumprir as metas de inflação —expondo o oportunismo rasteiro dos ataques à gestão anterior da instituição.
Felizmente para o país, a segunda alternativa foi a escolhida. A esta altura, resta ao governo remendar seu discurso para ao menos dar uma satisfação à sua base mais fiel e engajada.
Neste 2025, sob o comando de Gabriel Galípolo e uma maioria de diretores indicados por Lula, o BC não apenas manteve diagnósticos e diretrizes dos últimos anos como elevou a Selic de 12,25% para 15% anuais, a maior taxa desde julho de 2006 —no primeiro governo Lula, aliás.
De início, a cúpula petista atribuiu esse movimento a uma herança deixada pelo escolhido de Bolsonaro, Roberto Campos Neto. Já capenga na origem, o argumento cai no ridículo quando Galípolo afirma que a política monetária permanecerá “num patamar bastante restritivo por um período prolongado”.
Como noticiou a coluna Painel, diz-se em Brasília que Lula pretende autorizar auxiliares a subirem o tom das críticas ao BC. Coincidência ou não, na terça-feira (7), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em entrevista a um veículo oficial que a taxa de juros “está excessivamente restritiva”.
Haddad, diga-se, teve o cuidado de declarar respeito institucional ao BC e defendeu seu direito de opinar sobre o tema. É curioso, de todo modo, como se repete o padrão de enfatizar a política monetária e deixar em segundo plano os déficits orçamentários cavalares do governo Lula e o índice de preços persistentemente acima da meta de 3% anuais.
Ora, é óbvio que juros de 15% são uma anomalia altamente nociva ao país. Por isso mesmo, deveria ser urgente um debate maduro, sem demagogia nem teorias conspiratórias já desmoralizadas, sobre por que, mesmo com tamanho arrocho, a inflação —um flagelo social ainda mais perigoso— não está domada.
Como o PT não quer falar de controle de gastos, ao menos até as eleições do próximo ano, a velha lenga-lenga sobre os juros continua sendo mais cômoda.
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Fonte ==> Folha SP