Cenas de guerra mostraram o poderio aterrador do crime organizado no Rio de Janeiro durante megaoperação nesta terça (28) contra a facção Comando Vermelho (CV). O resultado desastroso do combate ao narcotráfico foram ao menos 64 mortes, sendo 4 de policiais, na ação mais letal do gênero na história do estado.
A chamada Operação Contenção se deu nos complexos do Alemão e da Penha, que abrigam 26 comunidades. A resposta do CV foi fechar ruas com barricadas, boa parte delas com ônibus e caminhões roubados. Segundo o governo fluminense, os criminosos dispararam com fuzis e usaram drones para lançar bombas contra equipes e civis.
O saldo da intervenção descambou em disputa política. O governador Cláudio Castro (PL) queixou-se em entrevista do Supremo Tribunal Federal (STF), que fixou regras para ações policiais no estado, e do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teria negado três pedidos para a ajuda das Forças Armadas em outras operações —não nesta. “O Rio está sozinho nessa guerra”, declarou.
Em resposta, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse que o governador deve “assumir as suas responsabilidades” ou, caso julgue que não tem recursos suficientes para enfrentar o crime organizado, pedir formalmente intervenção federal, estado de sítio ou atuação das Forças Armadas na segurança pública.
Já o Ministério da Defesa afirmou ter colocado blindados à disposição de Castro em janeiro, mas que uma colaboração mais ampla dependeria da decretação de uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) —o que já ocorreu no Rio em anos recentes.
Trata-se de um debate já contaminado por animosidades eleitorais, a um ano dos pleitos presidencial e estadual. É óbvio, a esta altura, que a onipresença de facções do narcotráfico (como o CV) se tornou uma tragédia que exige com urgência ação integrada entre o governo fluminense e a União —a população espera que o teor desse diálogo entre Rio e Brasília venha a público.
A hora é péssima para a demagogia praticada por Lewandowski. Pelo que disse o ministro, parece que não há meio termo entre a ação solitária da polícia do Rio, em um extremo, e uma intervenção federal, no outro. A realidade exige cooperação entre os dois governos para livrar a população do jugo desses grupos bárbaros.
Está em gestação agora um projeto de lei específico para o combate às facções, mas não será fácil, ao que parece, chegar a um entendimento político para sua rápida aprovação. De todo modo, a soma de esforços de governos e instituições, que já rendeu bons exemplos recentes, não deveria esperar a votação de leis.
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Fonte ==> Folha SP