Não se trata de novidade, mas é o caso de mais gente saber: há um excelente programa de humor sobre geopolítica internacional nas redes, e ele é feito com fantoches ao estilo Vila Sésamo. Melhor ainda, não poupa ninguém, direita, esquerda ou centro. É “Puppet Regime” (“regime fantoche”, um trocadilho sem sutileza), produzido pela GZero Media, empresa ligada à consultoria Eurasia.
Quando o programa foi criado, em 2018, a principal pergunta para o analista político Ian Bremmer, fundador da Eurasia, era por que diabos uma consultoria política e econômica de tamanho peso estava gastando milhares de dólares e centenas de horas de trabalho para fazer os vídeos de menos de dois minutos, conforme Bremmer relata em seu LinkedIn.
“Como cientista político, percebi que a coisa mais importante que poderia fazer seria levar as pessoas a saírem, voluntariamente, de sua zona de conforto ideológicas”, diz Bremmer no post. “O jeito mais fácil de fazer isso é (1) com humor e (2) envolvendo o pessoal mais jovens.”
De 2018 para cá, a coisa só piorou. Passados 371 episódios, Bremmer e o homem por trás do show —o jornalista, cientista político e cineasta Alex Kliment— cumpriram a promessa. “Puppet Regime” não é para quem tem político de estimação. Ou talvez até seja, desde que esteja disposto a rir de seu malvado favorito, seja ele de direita ou de esquerda.
Ao longo das oito temporadas, sobrou para Donald Trump, Joe Biden, Vladimir Putin, Xi Jinping, Narendra Modi, Elon Musk, Donald Trump novamente, Kim Jong-un, Mohammed Bin Salman. Os brasileiros Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fazem aparições frequentes, e a dublagem das vozes é excelente, inclusive a dos personagens nacionais. Kliment, que viveu no Brasil como correspondente, é o responsável por elas e também por roteiros, direção e concepção artística.
Sendo um veículo americano, naturalmente Trump é o personagem mais constante. Mas há esquetes hilários protagonizados por outros, como o podcast estrelado por Putin e Xi, “Os Autoritários”. O autocrata russo, na versão fantoche, é tarado por cantoras pop americanas, e o dirigente chinês jamais larga o cigarro.
Recentemente, o “bromance” entre Bolsonaro e Trump virou alvo do programa, quando um abatido Jair telefonou para seu amigo Donald reclamando que este o havia trocado por café. Era uma alusão à decisão de Trump, após se reunir com Lula, de suspender o tarifaço sobre os produtos brasileiros. Ao que Donald respondeu: “Café não; foi café, carne, maga, açaí… embora eu nem saiba o que é isso”.
A ascensão dos talk shows de humor político na TV americana durante as últimas duas décadas, com ecos no Brasil e alhures, marcou a mudança na forma como os mais jovens se informam sobre os acontecimentos recentes. Mas com o tempo, e com os ataques à democracia promovidos por Trump, a linha desses programas passou de genericamente progressista para radicalmente progressista, afastando parte significativa do público.
“Puppet Regime” não sofre desse problema, pois faz de todo mundo um alvo de piadas. E é por isso que é tão bom, nenhum político deveria ser intocável. Uma das funções do humor, afinal, é provocar reflexão, inclusive sobre nossas próprias ideias.
Fonte ==> Folha SP