Essa é uma daquelas que faz a gente se maravilhar com a criatividade quase infinita da natureza. Um grupo de astrônomos trabalhando com o Telescópio Espacial James Webb caracterizou o que pode muito bem ser o exoplaneta mais estranho já observado —e eles não têm ideia de como explicá-lo.
Os mais entendidos vão sacar o começo da esquisitice já pelo nome: PSR J2322-2650b. A nomenclatura indica que se trata de um planeta de pulsar, ou seja, um que orbita uma estrela de nêutrons, um cadáver ultracompacto do que um dia foi uma estrela normal, maior que o Sol, até esgotar sua capacidade de se manter estável por meio da fusão nuclear que ocorre em seu interior.
Encontrar planetas ao redor de pulsares já é algo esquisito, uma vez que esses astros, antes de serem comprimidos até terem um tamanho de uns poucos quilômetros, têm o péssimo hábito de explodir como supernovas, arrebentando tudo nos arredores. Mas sabemos que alguns deles acabam formando planetas –pequenos astros de segunda geração, gerados a partir dos detritos da explosão inicial. Por sinal, pequenos planetas de pulsares foram os primeiros a serem descobertos fora do Sistema Solar, em 1992, três anos antes do primeiro em torno de uma estrela similar ao Sol.
Só que o PSR J2322-2650b não é um desses “planetas-farelinho”; é um catatau com pelo menos 80% da massa de Júpiter. Imagina-se que esse sistema tenha parentesco com uma classe de sistemas vulgarmente conhecidos como “viúvas negras”, em que uma estrela companheira em órbita do pulsar é lentamente devorada por ele, com uma paulatina transferência de matéria da primeira para o segundo.
O PSR J2322-2650 parece ser igual, mas com um companheiro de massa bem menor, pequeno demais para ser estrela ou anã marrom (uma estrela “abortada”, por assim dizer). Em resumo, ele consiste em um planeta gigante orbitando um pequeno pulsar ultracompacto –imagine a massa do Sol comprimida no tamanho de uma cidade. E o traçado que o planeta faz é igualmente compacto: se a Terra dá uma volta ao redor do Sol a cada 365 dias, ele faz o mesmo em torno do pulsar a cada 7,8 horas. A gravidade é tão intensa que o planeta tem um formato achatado, como um limão.
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Já parecia um alvo apetitoso para os astrônomos do grupo de Michael Zhang, na Universidade de Chicago, quando eles apontaram o Webb na direção do sistema. O telescópio espacial oferecia uma bela vantagem para o estudo: além da sensibilidade, ele trabalha em infravermelho, comprimento de onda em que o pulsar é invisível, facilitando a observação “limpa” da assinatura de luz do planeta. E o que esses dados fizeram, segundo as palavras de Zhang e colegas, em seu artigo publicado no Astrophysical Journal Letters, foi revelar “uma atmosfera bizarra que levanta mais questões do que respostas”.
Ela é essencialmente composta de carbono, com alguma quantidade de hélio –algo muito diferente de tudo que já foi visto ou mesmo especulado até hoje. “Essa coisa se formou como um planeta normal? Não, porque a composição é inteiramente diferente”, diz Zhang. “Ele se formou pela extração da parte externa de uma estrela, como os sistemas viúvas negras ‘normais’ se formam? Provavelmente não, porque a física nuclear não faz carbono puro.”
Ou seja, eis aí um exoplaneta que os cientistas ainda não sabem explicar, nem mesmo por hipótese. A parte divertida do trabalho científico começa agora: propor possíveis explicações e derivar delas potenciais efeitos observáveis, de modo a testá-las. Por ora, é mais um lembrete de que o espaço contém mais mistérios e maravilhas do que imaginamos e, por vezes, mais até do que sequer conseguimos imaginar.
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Fonte ==> Folha SP – TEC