Ondas de direita e esquerda se revezam nos governos da América Latina, sem que os eleitores tenham clara preferência ideológica, mas, sim, rejeição a gestões que não conseguem melhorar as condições de vida ou promover o crescimento, sejam de que orientação forem. Mas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resolvido a tratar o território abaixo do Rio Grande como de interesse estratégico, o alinhamento ideológico imediato dos governos, mesmo a curto prazo, importa, e a configuração atual é conservadora e favorável aos interesses americanos. A eleição de Nasry Asfura em Honduras consolidou esse alinhamento e traz mais desafios à atual política externa brasileira, em geral alinhada à esquerda.
Seja na América Central, no Caribe ou mesmo no Mercosul, a vitória de governos que têm bandeiras políticas semelhantes às de Trump, como a ojeriza à imigração professada por José Antonio Kast, recém-eleito para dirigir o Chile, ou o credo liberal radical esposado por Javier Milei, na Argentina, dão um sinal verde para o avanço de políticas definidas em Washington. Até recentemente, ao contrário, elas não gozavam de popularidade na maioria dos países latino-americanos.
Na América do Sul, o Brasil começa a ficar isolado. A segunda maior economia do Cone Sul, a Argentina, é claramente favorável à orientação dos EUA, e tornou-se ainda mais fiel depois que o governo americano providenciou um swap de emergência de US$ 20 bilhões para socorrer o governo de Milei, além de auxiliá-lo a evitar uma maxidesvalorização com compras de pesos, por bancos privados. Milei teve ampla vitória e aumentou as chances de, com maior representação no Congresso, levar adiante sua agenda liberal e antiperonista.
A maioria da população chilena consagrou os partidos conservadores na eleição presidencial, mas não apenas isso: escolheu a sua ala mais extremista, personificada por José Antonio Kast, que conseguiu ter sucesso após duas tentativas fracassadas. Kast pôs fim à alternância entre partidos moderados pendendo à direita e à esquerda, e proporcionou uma dura derrota a Gabriel Boric, o mais jovem político progressista do país, que, no entanto, não conseguiu realizar quase nenhum dos projetos para os quais foi eleito.
A trajetória de Boric parecia promissora. É raro para um político de esquerda fazer duras críticas à ditadura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que é incensado pelo governo brasileiro, mas na política doméstica não obteve apoio nem do Congresso nem da população. O primeiro referendo para mudar a Constituição, feita durante do ditador general Augusto Pinochet, mexeu excessivamente o pêndulo legal para a esquerda, e a proposta acabou rejeitada amplamente por 62% dos votantes. Em seguida, um conselho constituinte com a maioria de representantes da direita não conseguiu consenso para aprovar as propostas de mudanças, que não foram adiante.
Aliado dos governos petistas, o governo boliviano assistiu a um racha severo no Movimento ao Socialismo, com Evo Morales, duas vezes presidente, e que queria continuar a ser apesar de a Constituição não o permitir, e o candidato governista foi derrotado com grande margem também pelas forças mais conservadoras. Após 20 anos de gestão do MAS, dois candidatos direitistas decidiram o segundo turno, após eliminarem os concorrentes esquerdistas. O novo presidente, Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, que obteve 54% dos votos, espera que o apoio nas urnas seja suficiente para que ele possa eliminar os subsídios aos combustíveis à população, uma aposta heroica que pode colocar abaixo as esperanças com que o novo governo é recebido.
No Mercosul, além de apoiar Milei, Trump fez um acordo militar com o presidente paraguaio, Santiago Peña, um moderado direitista do Partido Conservador, que permitirá o uso do país por tropas americanas. O Paraguai assumiu a presidência rotativa do bloco. Há, além disso, revolta da Argentina, que quer romper a união aduaneira para fazer um acordo bilateral com os EUA.
A Venezuela já foi isolada pelo Mercosul por não respeitar sua cláusula democrática e hoje está cercada pelas canhoneiras dos Estados Unidos. Mas os governos ao redor tornaram-se mais hostis a Maduro. Com exceção da Colômbia, do esquerdista Gustavo Petro, que enfrenta um duro teste das urnas em maio e que ainda vê com benevolência a ditadura venezuelana, Equador e Peru, assim como países da América Central, como o El Salvador do radical Nayib Bukele, e agora Honduras, não têm boas relações com Maduro.
O equilíbrio de forças de repente parece favorecer Trump, que, com política dirigida a obter amplas licenças para explorar matérias-primas essenciais na nova corrida tecnológica, está disposto a interferir diretamente nas políticas dos países da região. Não é possível prever os efeitos dessas intervenções, mas, sim, os das políticas domésticas. A América Latina caminha para seu quarto ano consecutivo de baixo desempenho (crescimento previsto de 2,3% em 2026, segundo a Cepal), com baixa performance de seus principais países. Nenhum governo de direita ou de esquerda, que se revezam, governará em paz com políticas que não promovam expansão equilibrada, com melhoria da renda.
Fonte ==> Exame