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Brasil precisa abraçar a destruição criativa | Opinião

Brasil precisa abraçar a destruição criativa | Opinião

Em um momento em que o Brasil volta a atrair a atenção do mundo por suas reservas de minerais críticos — uma janela de oportunidade para o país se inserir nas cadeias globais de valor —, é imperativo que o país crie um entorno propício para melhorar o ambiente de negócios e atrair investimentos. Mas, para isso, precisa permitir a destruição criativa, um processo disruptivo, com empresas entrando e saindo do mercado e competindo entre si, gerando crescimento econômico no processo, como mostram os trabalhos dos vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2025.

O Brasil é o país com a maior parcela das chamadas empresas-zumbi em uma comparação entre 25 economias emergentes, um fenômeno que reflete problemas de gestão das empresas brasileiras e fraca proteção aos credores, e que contribui para a baixa produtividade do trabalhador local. As empresas-zumbi são empresa improdutivas, que não só se endividam como têm dificuldade para gerar lucro e continuam operando a despeito de serem improdutivas. Por investirem menos, isso afeta a economia como um todo.

O recente estudo “Brasil: o coração da economia-zumbi nos mercados emergentes”, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mostra que 16,75% das empresas no país são “zumbis”, mais de duas vezes a média de 7,58% dos 25 países emergentes pesquisados e bem à frente da Turquia, que ocupa o segundo lugar no ranking, com 13,75%. Os dados do estudo destacam a persistência de empresas financeiramente frágeis no mercado brasileiro e a maior prevalência de empresas-zumbi durante os períodos pós-crise. É verdade que o Brasil não está sozinho: as empresas-zumbi seguem uma tendência global crescente, um fenômeno generalizado em praticamente todos os países analisados. Em 2005, a fração de zumbis, em relação ao número total de empresas listadas, era de 4,55%, essa fração atingiu 8,65% em 2016. O crescimento das empresas-zumbi foi mais rápido em países desenvolvidos do que em países de baixa e média renda — refletindo o maior apoio dado pelos países mais ricos após períodos de crise, como o estouro da bolha da internet, a crise financeira internacional 2007-2008 e a pandemia da covid-19.

Durante a década perdida da economia japonesa nos anos 90, o termo zumbi descrevia as empresas que sobreviviam graças a crédito barato, que restringia correções do mercado e afetava a produtividade. No Brasil, é o juro alto que torna o terreno fértil para as empresas-zumbi, pois encarece o financiamento e a entrada de novos players no mercado. Em 2025, por exemplo, estima-se que os investimentos em startups brasileiras alcançaram US$ 4,3 bilhões (R$ 24 bilhões), uma queda de 17% em relação ao aporte de US$ 5,2 bilhões (R$ 29 bilhões) registrado em 2024 (Valor, 2 de janeiro). Essa queda foi atribuída ao juro real de quase 10% — o segundo mais elevado do mundo, atrás apenas da Turquia —, que torna os investimentos em renda fixa mais atrativos e seguros.

Outro problema do Brasil é o baixo índice de execução de dívidas, o que ajuda a dar sobrevida às empresas-zumbi. Muitas instituições financeiras renovam dívidas de empresas inviáveis para evitar o reconhecimento de perdas e, com isso, acabam prolongando artificialmente a vida das empresas-zumbi. Essa dinâmica perniciosa compromete os investimentos, pois eleva os custos financeiros ao distorcer a alocação de capital, ao mesmo tempo em que fragiliza a competitividade — reduzindo a eficiência setorial e a resiliência da economia brasileira.

A solução para o problema passa pela redução da taxa de juros e pela reavaliação da Lei de Falências brasileira. É preciso colocar incentivos para que as partes interessadas possam executar as sua dívidas, em vez de prolongá-las. Em outras palavras, é preciso permitir a falência (destruição) de empresas insolventes, ineficientes e sem competitividade para liberar recursos (crédito) e espaço para novas empresas, inovadoras, criativas e eficientes, em um processo que gera dinamismo e crescimento econômico.

O conceito de destruição criadora ou criativa foi cunhado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter nos anos 1940, mas foi retomado e comprovado pelos economistas Philippe Aghion e Peter Howitt, laureados com o Nobel de Economia em 2025, “pela teoria de crescimento econômico sustentado pela destruição criativa”. Em artigo de 1992, os dois produziram um modelo matemático para explicar como se dá o processo de destruição criadora, no qual novas tecnologias para produtos e processos surgem e substituem — ou destroem — as antigas, e seus efeitos na economia.

Empresas que inovam estimulam o desenvolvimento econômico na sociedade. Porém, a sociedade precisa criar mecanismos para minimizar os efeitos negativos da destruição, como investir na capacitação dos trabalhadores para as novas habilidades exigidas pela inovação, como forma de reduzir a resistência. Para isso, é necessária uma “sintonia fina” entre a necessidade de concorrência no setor privado e a intervenção do Estado, para garantir que quem inova não está bloqueando outras empresas e que esse desenvolvimento econômico seja o maior e o mais inclusivo possível. É preciso ter equilíbrio entre competição e intervenção. Mas para se chegar a esse ponto, o Brasil, primeiro, precisa desligar os aparelhos que sustentam as empresas-zumbi.



Fonte ==> Exame

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