Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Neandertais possivelmente devoraram larvas e nos beijaram – 09/01/2026 – Ciência

Ilustração mostra um casal abraçado, com o homem de pele avermelhada e peluda e a mulher de cabelos longos castanhos. Ao fundo, fogos de artifício iluminam o céu noturno, e duas figuras fantásticas, uma azul e outra avermelhada, observam a cena. Vegetação verde aparece na parte inferior da imagem.

Os neandertais, que floresceram por toda a Eurásia durante centenas de milhares de anos antes de desaparecerem há cerca de 40 mil anos, tiveram um notável retorno aos holofotes científicos em 2025.

Diversos estudos exploraram aspectos de sua existência, desde sua vida amorosa (eles provavelmente beijavam os Homo sapiens) até possíveis falhas em seus glóbulos vermelhos que podem ter acelerado seu declínio.

Até pouco tempo atrás, esses hominínios ainda eram amplamente retratados como seres brutos de andar curvado, muito estúpidos para conceitos morais ou religiosos, provavelmente sem linguagem e comportamentalmente menos avançados que os humanos modernos.

O panorama mudou consideravelmente em 2010, após o Instituto Max Planck publicar o genoma completo do neandertal. O trabalho revelou que pessoas de descendência europeia ou asiática carregam até 4% de DNA neandertal, indicando uma extensa miscigenação entre a espécie e os Homo sapiens.

Desde meados da década de 1990, o arqueólogo João Zilhão, da Universidade de Lisboa (Portugal), tem argumentado que não havia uma diferença cognitiva ou cultural significativa entre os neandertais e os humanos modernos.

O trabalho de campo do pesquisador na Espanha indica que os neandertais criaram arte rupestre e joias, como conchas marinhas decoradas, entre 115 mil e 65 mil anos atrás, dezenas de milhares de anos antes de descobertas semelhantes ligadas ao Homo sapiens na África ou de sua chegada à Europa.

A reportagem do jornal New York Times pediu a Zilhão que compartilhasse sua perspectiva sobre os projetos relacionados aos neandertais noticiados no último ano.

Composição familiar

Em 1931, arqueólogos descobriram os restos de uma criança, provavelmente uma menina entre 3 e 5 anos de idade, na caverna Skhul no monte Carmelo em Israel. Estima-se que o fóssil teria 140 mil anos.

Um estudo publicado na revista L’Anthropologie sugeriu que ela seria fruto de um casal formado por um Homo sapiens e um neandertal. Isso recuaria a data em que esses grupos se misturaram em cerca de 90 mil anos e indicaria que interagiram mais cedo e mais profundamente do que se pensava.

Sob a direção de Israel Hershkovitz, da Universidade de Tel Aviv (Israel), e Anne Dambricourt-Malassé, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, paleoantropólogos reconstruíram digitalmente o crânio e a mandíbula da criança usando tomografias computadorizadas e tecnologia de mapeamento 3D.

Comparando esses modelos com os de outras crianças neandertais e os de primeiros Homo sapiens, os pesquisadores concluíram que a parte do crânio que abriga o cérebro se assemelhava à de um humano moderno e que a mandíbula e as estruturas do ouvido interno eram parecidas com as encontradas em neandertais.

As descobertas sugerem que a combinação única de traços aponta para uma mistura de longo prazo no Oriente Médio, em vez de meros encontros isolados.

Essa evidência desafia a noção de que os neandertais foram rapidamente substituídos pelos humanos modernos e que a evolução humana foi definida exclusivamente por conflitos. Em vez disso, os dois grupos parecem ter estado intimamente conectados, de tal forma que as populações locais de neandertais foram gradualmente absorvidas em grupos maiores de Homo sapiens, argumenta Hershkovitz. Isso apoia a teoria que vê ambos os grupos como parte de uma linhagem evolutiva fluida.

Hershkovitz sustenta que agrupar todos os primeiros humanos em um único grupo de espécies esconde detalhes importantes sobre por que algumas características permaneceram e outras desapareceram, e por que indivíduos mistos, como o híbrido de Skhul, surgiram.

Aderir a um modelo de espécie única pode parecer menos complicado, ele acrescentou, mas corre o risco de simplificar demais o registro fóssil, perdendo a verdadeira história da evolução e tornando mais difícil entender como diferentes grupos humanos interagiram e mudaram ao longo do tempo.

Apesar das evidências físicas, a classificação da criança de Skhul permanece controversa.

Para Zilhão, a extensão da miscigenação sugere que neandertais e Homo sapiens deveriam ser considerados uma única espécie. Hershkovitz, no entanto, afirma que as diferenças físicas entre os grupos justificam ter categorias separadas.

Os especialistas concordam que a análise de DNA poderia esclarecer a genealogia da criança, mas Zilhão observou que a idade e a localização do fóssil tornam improvável a recuperação de tais dados.

Dieta e caça

Um estudo publicado no periódico Quaternary Science Reviews detalhou como os neandertais na atual Sérvia caçavam, executando emboscadas ousadas e adotando estratégias para encurralar cabras selvagens.

Há cerca de 70 mil a 50 mil anos, no que hoje é Israel, grupos vizinhos de neandertais recorriam a diferentes métodos culturalmente transmitidos para esquartejar animais, de acordo com pesquisa publicada na Frontiers in Environmental Archaeology.

E em um artigo na Science Advances cientistas que trabalharam em um sítio na Alemanha descreveram como os neandertais extraíam gordura de ossos há 125 mil anos, muito antes dos primeiros Homo sapiens fazerem algo semelhante.

A dieta dos neandertais foi por muito tempo considerada rica em caça de grande porte, uma conclusão tirada da análise de isótopos de nitrogênio em seu colágeno ósseo. Mas um estudo publicado na Science Advances sugere que os mesmos dados também poderiam indicar uma dieta mais variada e onívora que incluía insetos.

‘Giz de cera’

Arqueólogos liderados por Francesco d’Errico, da Universidade de Bordeaux (França), analisaram 16 fragmentos de ocre encontrados em sítios neandertais na Crimeia e na Ucrânia continental, datando de até 100 mil anos atrás.

O estudo, detalhado na Science Advances, destacou três itens que mostraram evidências claras de terem sido intencionalmente moldados e usados para desenhar.

Uma descoberta notável foi um “giz de cera” amarelo de cinco centímetros de aproximadamente 42 mil anos atrás, que a análise microscópica mostrou ter sido repetidamente apontado, indicando que provavelmente era uma ferramenta valorizada. O item havia sido claramente modificado por meio de moagem e raspagem.

D’Errico argumentou que o “giz de cera” deve ser atribuído aos neandertais, não aos humanos modernos: foi encontrado em um local conhecido por ter sido ocupado por neandertais; e precedeu a era em que o Homo sapiens era amplamente aceito como tendo chegado àquela área.

Segundo ele, os pesquisadores chamaram o artefato de giz de cera com base em sua função e padrões específicos de desgaste, que confirmaram fortemente seu uso para marcar uma superfície, possivelmente pele ou rocha. Pequenos sinais de fricção e pressão aplicada, não apenas a forma do objeto, sugeriram que ele havia sido usado como uma ferramenta artística.

“Mais uma prova de que os neandertais se envolviam no uso simbólico de corantes”, disse Zilhão, que frequentemente colaborou com D’Errico.

Beijos entre espécies

Evidências genéticas e fisiológicas indicam que neandertais e Homo sapiens se cruzaram. Mas uma pesquisa liderada pela bióloga Matilda Brindle, da Universidade de Oxford, sugere que esses encontros provavelmente também envolveram beijos.

O estudo, publicado na Evolution and Human Behavior, descobriu que ambos os grupos compartilhavam bactérias orais específicas que divergiram muito tempo depois de sua separação evolutiva, indicando o que Brindle chamou de “engajamento prolongado e troca de saliva”.

Namoricos entre hominínios não deveriam ser uma surpresa, de acordo com Zilhão, considerando como esse comportamento é difundido entre as espécies. “Macacos fazem isso, girafas fazem isso, ursos polares fazem isso e os neandertais também faziam. Quem diria?”



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados