Elon Musk deve ser mantido como membro da Royal Society mesmo que o Grok, desenvolvido por sua empresa, tenha gerado imagens sexualizadas, incluindo de menores de idade, segundo o novo presidente da instituição britânica.
Paul Nurse afirmou ao Financial Times que as imagens explícitas são “uma desgraça”, mas que a academia de ciências não deveria começar a “fazer julgamentos” sobre o “caráter e comportamento” dos membros, mesmo se a tecnologia que eles criaram permitir atos ilegais.
“Isso não significa que não devamos criticar e criticar publicamente, não tenho problema com isso”, disse Nurse sobre Musk. “Mas acho que é ingênuo, francamente, dizer que deveríamos nos livrar dele porque ele é uma pessoa ruim. Receio que existam muitas pessoas ruins por aí, mas elas fizeram avanços científicos.”
A instituição de 365 anos foi abalada em 2025 depois que dois membros renunciaram em protesto contra a continuidade da participação de Musk. Além disso, outros cientistas de dentro e de fora da academia condenaram o comportamento do bilionário da tecnologia.
As queixas incluíam a de que ele disseminava desinformação e de que era responsável por cortes drásticos em instituições de pesquisa científica dos Estados Unidos por meio do Departamento de Eficiência Governamental (Doge). Musk deixou o governo americano em maio do ano passado.
A academia fez uma reunião extraordinária com seus membros em março, mas decidiu não adotar nenhuma medida disciplinar contra Musk, eleito membro em 2018. Argumentou-se que julgamentos potencialmente vistos como políticos fariam “mais mal do que bem”.
O código de conduta da academia estabelece que os membros devem “se esforçar para manter a reputação da sociedade” e atentar para o fato de que comentários feitos em caráter pessoal poderiam afetá-la.
Nurse, então presidente eleito da entidade, escreveu a Musk como parte da resposta às preocupações. Ele disse que sugeriu ao fundador da SpaceX que renunciasse a sua filiação, porém não recebeu resposta.
Musk foi alvo de novas críticas por causa das imagens produzidas pela ferramenta de inteligência artificial Grok em resposta às instruções dos usuários. Legisladores no Reino Unido, União Europeia e França ameaçaram a plataforma de mídia social X, na qual as imagens são publicadas, com multas e proibições.
Na sexta-feira (9), o acesso à função de geração de imagens do Grok foi limitado a assinantes pagos, mas o Reino Unido considerou que a mudança “simplesmente transforma um recurso de IA que permite a criação de imagens ilegais em um serviço premium”.
Procurada, a xAI respondeu: “A mídia tradicional mente”. A empresa afirmou que removeu imagens ilegais de crianças geradas por IA.
Em 3 de janeiro, Musk publicou no X que “qualquer pessoa que usar o Grok para criar conteúdo ilegal sofrerá as mesmas consequências de quem faz upload de conteúdo ilegal”.
Nurse, que foi presidente da Royal Society entre 2010 e 2015, disse que a instituição deveria expulsar membros apenas se sua ciência se provasse “falha, fraudulenta ou altamente defeituosa”.
“Está vendo o Isaac Newton, atrás de você?” perguntou ele, apontando em seu escritório para um retrato do matemático e físico, que presidiu a Royal Society por 24 anos no início do século 18. “Ele era uma pessoa muito desagradável, mas nós o reverenciamos.”
A sociedade não era um “clube de jantar” ou “partido político”, segundo Nurse, acrescentando ter certeza de que ela reuniu “assassinos” e outros criminosos no passado.
Nurse, coganhador do Prêmio Nobel de fisiologia ou medicina de 2001, também afirmou que os ataques da administração Trump à ciência dos EUA provavelmente levarão pesquisadores de outros países a colaborar mais com colegas chineses.
Os cortes de financiamento dos EUA e o encerramento ideologicamente motivado de áreas de investigação relacionadas ao clima, vacinas e desigualdades na saúde foram um “desastre para eles”, disse ele.
“Eu acho que haverá uma mudança”, acrescentou Nurse, que deve realizar reuniões na China na próxima semana em um esforço para incentivar a colaboração com os cientistas do país e construir confiança entre indivíduos e instituições. “Os EUA estão se voltando para si mesmos, e isso vai prejudicá-los… definitivamente terá um impacto negativo.”
Áreas para potencial trabalho conjunto entre o Reino Unido e a China incluíam clima e agricultura, o que levaria a pesquisas publicadas e evitaria “questões mais espinhosas” de comércio e segurança, disse Nurse.
As observações dele estão alinhadas com um acordo reduzido de colaboração intergovernamental em ciência e tecnologia assinado entre o Reino Unido e a China em novembro. O acordo excluiu alguns campos mencionados em um acordo anterior de 2017, incluindo satélites, tecnologia de sensoriamento remoto e robótica.
Fonte ==> Folha SP – TEC