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Como lidar com oscilações hormonais e emocionais no ambiente de trabalho? | Carreira no Divã

Colunista questiona: "quais sinais você tem ignorado para continuar funcionando e o que poderia mudar se você começasse a escutá-los com mais coragem?" — Foto: Freepik

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

“Estou passando por um período delicado na vida pessoal, com muitos altos e baixos, às vezes triste, às vezes irritada. Acredito que esteja entrando na menopausa, por isso essa montanha-russa de emoções. Acontece que, por conta disso, fico muito sensível a críticas e frustrações. Nessa semana, meu chefe negou uma ideia minha e eu acabei chorando na frente dele. Depois, uma colega me acionou diversas vezes e eu fui ríspida com ela. Na maioria dos dias, chego no trabalho e não tenho vontade de ser simpática com ninguém. O que posso fazer a respeito? Devo esconder minhas emoções para que isso não se torne um problema ainda maior? Como conseguir criar uma máscara social para conseguir conviver com as pessoas no trabalho?” Supervisora de logística, 49 anos

Como mulher, quero começar essa resposta não apenas manifestando a minha solidariedade mas, principalmente, o meu reconhecimento. O que você descreve não é fragilidade, exagero ou falha pessoal. É um corpo e uma psique sinalizando que algo importante está em transição.

Alterações de humor, irritabilidade e ansiedade podem estar associadas à perimenopausa ou à menopausa. Ainda assim, nossa sociedade insiste em tratar essa fase como um detalhe inconveniente, algo que deve ser suportado em silêncio, com bom humor e produtividade intacta. Quando não é invisibilizada, vira piada; quando incomoda, é minimizada. “É normal”, dizem, como se o fato de ser comum anulasse o direito ao cuidado.

O problema é que esse discurso não apenas deslegitima a experiência feminina, como também posterga diagnósticos, inibe tratamentos e amplia o sofrimento. Em muitos casos, a negligência parte justamente de quem deveria orientar, acolher e oferecer caminhos terapêuticos. O tabu, assim, se retroalimenta.

Hoje, cerca de 30 milhões de mulheres vivem a menopausa no Brasil. Um levantamento da Ipsos, realizado com mulheres de diferentes regiões e classes sociais, revela que 44% daquelas que apresentam sintomas não fazem nenhum tipo de tratamento, seja por desinformação, desqualificação da dor ou exaustão de ter que insistir para ser levada a sério. É um dado que não fala apenas de saúde; fala de cultura.

Colunista questiona: “quais sinais você tem ignorado para continuar funcionando e o que poderia mudar se você começasse a escutá-los com mais coragem?” — Foto: Freepik

Por isso, minha primeira recomendação é objetiva e cuidadosa: procure um médico, atualize seus exames e investigue se esses sintomas estão, de fato, relacionados à menopausa. Quando bem acompanhados, muitos deles podem ser controlados, suavizados e, em alguns casos, eliminados. Sofrer não precisa ser um preço a pagar por essa fase.

Mas há um aspecto menos discutido e igualmente decisivo. A menopausa, como todo grande ciclo vital, também desencadeia processos de luto. Não se trata apenas de oscilações hormonais; há uma transição biológica em curso, acompanhada de perdas simbólicas e subjetivas que raramente encontram espaço para elaboração.

Perde-se, em alguma medida, a identidade associada à juventude e à fertilidade, mas também emergem camadas mais profundas: a desvalorização social das mulheres que envelhecem, a sensação de potencial não vivido, mudanças na autoimagem, além de traumas herdados de uma história coletiva marcada por silenciamento, invisibilidade e exigência constante de adaptação.

Perimenopausa e menopausa são, portanto, períodos que também exigem ajustes emocionais e psíquicos. O acompanhamento psicológico pode ser um aliado fundamental para nomear sentimentos, reorganizar narrativas internas e atravessar essa transição com menos culpa e mais inteireza.

Caso a hipótese da menopausa seja descartada, o convite permanece: investigar o que, dentro e fora do trabalho, pode estar intensificando esse desconforto emocional. Eu costumo chamar esse movimento de buscar conforto no desconforto, isto é, olhar para aquilo que incomoda não para anestesiar, mas para compreender.

Mascarar emoções é uma estratégia comum, socialmente incentivada e profundamente nociva, que adia o sofrimento, mas cobra juros altos, sobretudo no ambiente corporativo. Evita conflitos no curto prazo, mas sabota a saúde e o crescimento no longo prazo.

É por isso que a regulação emocional se tornou uma das competências mais relevantes para a vida e para a carreira. Não se trata de controlar sentimentos, mas de reconhecê-los, compreender seus gatilhos, dosar reações e escolher respostas mais conscientes. É um processo que aprofunda o autoconhecimento, fortalece relações e libera energia psíquica para decisões mais alinhadas no trabalho e fora dele.

No fim, a pergunta que fica não é apenas sobre hormônios ou desempenho profissional. É mais essencial e mais desafiadora: que sinais você tem ignorado para continuar funcionando e o que poderia mudar se você começasse a escutá-los com mais coragem?

Mariana Clark é psicóloga, especialista em saúde mental, perdas e luto no contexto organizacional e escolar.

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.



Fonte ==> Exame

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