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É a democracia, não a economia, estúpido – 21/01/2026 – Lúcia Guimarães

Presidente dos EUA fala em púlpito com microfone diante de fundo azul com logo do Fórum Econômico Mundial.

O registro do primeiro ano da maior disrupção em curso nos Estados Unidos em um século não pode ser examinado sem atenção ao papel da imprensa.

É fácil culpar a falta de mensagem coesa dos democratas pela decisão de milhões de americanos que, tendo assistido à bárbara invasão do Capitólio, teriam concluído, menos de quatro anos depois: queremos mais do mesmo.

É preguiçoso atribuir a crise existencial do sistema americano do pós-guerra à irritação de 77 milhões de eleitores com o preço dos ovos. Virou moda acusar o centro e a esquerda de estupidez por insistirem em fazer campanha em defesa da democracia. É preciso a negação do avestruz para descrever os confrontos eleitorais do presente como o velho embate entre dois partidos igualmente comprometidos com as ideias que fundaram a república.

Dói notar como ainda predomina, no exercício do jornalismo “mainstream”, a pressuposição de normalidade. Não era preciso esperar a ascensão meteórica de Zohran Mamdani à Prefeitura de Nova York para cobrir o quanto o tema da acessibilidade –hoje repetido em todo o espectro político– é indissociável do exercício do poder político.

Sabem quem acredita nisso, além do prefeito? Donald J. Trump. Na terça (20), o presidente publicou um decreto proibindo firmas de Wall Street de comprarem casas e apartamentos, um investimento predatório que coloca famílias de classe média em concorrência com fundos bilionários. Vamos “parar de tratar os bairros americanos como se fossem um pregão de ações,” explicou o comunicado da Casa Branca.

A mesma mídia que lavou as mãos com a explicação do “preço dos ovos”, manteve o público desinformado sobre o esforço antitruste nos quatro anos do governo de Joe Biden. Comandado pela brilhante Lina Khan, na Comissão Federal de Comércio, o projeto era uma vitrine para demonstrar como proteger a democracia faz baixar o custo da dúzia de ovos.

Khan foi empregada por Zohran Mamdani para investigar práticas de negócios que extorquem os consumidores nova-iorquinos.

O jornalismo declaratório que repete, como sonâmbulo, a falácia dos “dois lados”, não estava equipado para o segundo mandato do presidente republicano que excluiu qualquer assessor ou membro de gabinete disposto a deter seus impulsos. Mais do que uma falha de serviço público, houve uma falha sistêmica de imaginação.

Há sinais positivos de reação na mídia independente, como a plataforma Substack, em que o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, depois de mandar às favas seus capatazes medíocres da seção de opinião do New York Times, publica colunas e conversa com interlocutores que ajudam a explicar como a concentração de poder econômico faz disparar mais do que o preço dos ovos.

Jornalistas políticos fariam por bem ler a íntegra do discurso de Mark Carney em Davos. Ao longo de 16 minutos, concluídos com uma rara ovação de pé, o líder canadense ofereceu melhor reportagem e análise do presente do que a maioria dos escribas de prosa flatulenta em Washington.

O primeiro-ministro apontou o óbvio –a ruptura da ordem internacional. Destacou que a velha ordem mundial não vai voltar e que nostalgia não é estratégia, mas que a fratura oferece oportunidades.

“Esta é a tarefa das potências médias, os países que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com uma cooperação genuína,” disse Carney.



Fonte ==> Folha SP

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