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Cientistas batem recorde de descrição de espécies – 26/01/2026 – Ciência

Lagarto com pele rugosa e manchas brancas e verdes está posicionado em galho seco em ambiente escuro, com folhas secas ao redor.

As taxas atuais de descrição de novas espécies são as mais altas de todos os tempos, e os cientistas devem continuar esse trabalho, no caso de alguns grupos de seres vivos, até depois do ano 2400, de acordo com pesquisadores dos Estados Unidos. A diversidade é tamanha que mesmo alguns agrupamentos muito estudados de animais podem abrigar até quatro vezes mais espécies do que as batizadas até agora.

O estudo que traz essas conclusões saiu em dezembro na revista especializada Science Advances e foi coordenado por John Wiens, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Arizona em Tucson. De acordo com Wiens e seus colegas, o atual ritmo das descrições tem sido de pelo menos 16 mil novas espécies por ano desde 2015.

Esse processo de descrição formal e publicação é essencial para que a comunidade científica reconheça oficialmente a existência de uma espécie de animal, planta, fungo ou micro-organismo (os vírus não costumam entrar na conta porque talvez não possam ser considerados seres vivos).

Em geral, as descrições envolvem o mapeamento das características corporais, comportamentais e genéticas da nova espécie proposta, comparando-a com outras espécies aparentadas a ela, e a designação com o nome duplo em latim, que traz primeiro o gênero e depois a espécie propriamente dita –o da nossa espécie é Homo sapiens. Tal padronização foi formulada originalmente no século 18 pelo naturalista sueco Carl Nilsson Linnaeus (mais conhecido como “Lineu” em português).

Na nova pesquisa, Wiens e seus colaboradores usaram a base de dados online CoL (Catálogo da Vida, na sigla inglesa). O CoL traz dados sobre cerca de 2 milhões de espécies descritas até hoje, abrangendo todos os subgrupos existentes, o que equivale a mais de 75% de todos os seres vivos formalmente catalogados desde a época de Lineu. A organização do CoL (assim como outras bases de dados) costuma cadastrar também o ano em que a descrição formal foi publicada, o que ajuda a identificar o ritmo com que esse trabalho tem sido feito desde o século 18.

Estudos anteriores, feitos a partir de bases de dados menos completas, chegaram a sugerir que o auge das descrições já tinha ficado para trás havia muito tempo, tendo ocorrido no começo do século passado. Essa estimativa parecia fazer sentido, considerando que o início do século 20 seria o momento imediatamente posterior ao auge da expansão colonialista europeia pelas regiões tropicais do mundo, que são as mais biodiversas da Terra.

Os naturalistas e, mais tarde, biólogos europeus e norte-americanos, nesse período, já teriam tido tempo de montar grandes acervos por meio de coletas nos ambientes naturais e de gastar mais algumas décadas em seus museus para enfim publicar muitas descrições de bichos.

Segundo o novo estudo, esse cenário estava apenas parcialmente correto. Por um lado, de fato, os animais como um todo passaram por um grande pico de novas descrições no começo do século 20. Já as plantas como um todo, curiosamente, tiveram seu maior pico de descrições na década de 1750 –em parte por causa do esforço pessoal de Lineu, que descreveu quase 6.000 plantas num único livro nessa época– e o segundo maior pico em 1910.

Mas, para esses mesmos dois grandes grupos, os picos das décadas de 2000 e 2010 se aproximam dos do século passado ou até os superam (os dados do CoL vão até o ano de 2020). A virada do século 21 marcou um impulso geral muito forte de novas descrições, e o ano recordista de novas espécies batizadas é justamente o último da série histórica, com 17.044 novas descrições. De todas as espécies já descritas até hoje, 15% foram formalizadas para a ciência nos últimos 20 anos.

É importante lembrar, claro, que se trata da soma de todas as espécies –existe uma variação grande de grupo para grupo de seres vivos, com alguns que já estão sendo descritos num ritmo relativamente baixo, enquanto outros pegaram embalo, por assim dizer, só recentemente. Animais que normalmente são muito visíveis e atraem naturalmente a atenção humana, como os mamíferos e, principalmente, as aves (que contam com muitos observadores amadores interessados nelas), têm revelado surpresas com bem menos frequência –menos de dez novas espécies de aves têm sido descritas anualmente de 2000 para cá, por exemplo.

A equipe fez ainda algumas estimativas interessantes sobre o quanto ainda falta para uma conta total da biodiversidade da Terra, levando em conta as tendências que identificaram. As listas atuais de espécies de peixes, anfíbios e plantas, por exemplo, somam 42 mil, 9.000 e 386 mil tipos de organismos, respectivamente, mas os números reais podem ser de 115 mil para os peixes (mais que o dobro), 41 mil para os anfíbios (mais que o quádruplo) e ultrapassar o meio milhão no caso das plantas. Quanto à soma de todas as espécies, Wiens diz que ela pode estar na casa das dezenas ou centenas de milhões, ou mesmo chegar a alguns bilhões.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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