Cientistas apresentaram na segunda-feira (26) um novo mapa com a distribuição da matéria escura no Universo. Elaborado com observações do telescópio James Webb, ele tem o dobro da resolução de uma versão anterior —com dados do Hubble—, abrange mais partes do Cosmos e observa mais longe no tempo, olhando para cerca de 8 a 10 bilhões de anos atrás, um período chave para a formação de galáxias.
“Isso nos permite analisar estruturas de matéria escura mais finas, detectar concentrações de massa que antes eram invisíveis e estender o mapeamento da matéria escura para épocas mais antigas do Universo”, afirmou Diana Scognamiglio, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa na Califórnia (Estados Unidos). Ela é a autora principal do artigo, publicado na revista Nature Astronomy, sobre o novo mapa.
O mapa revela com clareza sem precedentes detalhes da macroestrutura chamada teia cósmica, ou seja, a distribuição de galáxias, seus aglomerados e superaglomerados. O trabalho cobre uma parte do céu localizada na direção da constelação de Sextans e, segundo os autores da pesquisa, pode facilitar futuras investigações.
“Por exemplo, uma grande questão na astrofísica é como as galáxias crescem e evoluem com o tempo, como o Universo passou de uma sopa quase perfeitamente homogênea para a espetacular variedade de galáxias que vemos hoje”, disse Jacqueline McCleary, da Northeastern University em Boston, coautora do estudo.
“Saber onde está a matéria escura, quanto dela existe e conectá-la à população de galáxias dentro da distribuição de matéria escura estabelece uma importante condição de contorno para modelos de formação e evolução de galáxias”, acrescentou a pesquisadora.
O Universo é composto de matéria comum, matéria escura e energia escura.
Tudo o que é visível é feito de matéria comum, a exemplo de estrelas, planetas e seres humanos. Ela compreende em torno de 5% do Universo. A matéria escura, que não absorve, não reflete e não emite luz, responde por outros 27%. A energia escura é responsável pelo restante.
Cientistas inferem a existência da matéria escura com base nos efeitos gravitacionais que ela exerce em larga escala, como a velocidade com que as galáxias giram, como os aglomerados de galáxias se mantêm unidos e como a luz de objetos distantes se curva ao passar por estruturas cósmicas.
O projeto baseou-se nesse fenômeno de curvatura da luz, que produziu sutis distorções na forma de cerca de 250 mil galáxias observadas pelo James Webb, para chegar à distribuição das matérias escura e comum.
“Usar o James Webb é como colocar um novo par de óculos para ver o Universo”, comparou Scognamiglio. Lançado em 2021 e em operação desde 2022, o ele tem cerca de seis vezes o poder de captação de luz do telescópio Hubble.
“Ele vê galáxias mais fracas e distantes com muito mais detalhes do que nunca. Isso nos dá uma grade muito mais densa de galáxias de fundo para trabalhar, que é exatamente o que se quer para esse tipo de estudo. Mais galáxias e imagens mais nítidas se traduzem diretamente em um mapa mais preciso da matéria escura.”
Os pesquisadores afirmaram que suas observações estão em harmonia com o principal modelo cosmológico que explica o início do Universo com o Big Bang e sua subsequente evolução e estrutura. O modelo considera um Universo dominado pela matéria escura e pela energia escura, responsável por sua expansão acelerada.
“Nesse contexto, a matéria escura fornece a estrutura gravitacional sobre a qual galáxias, grupos e aglomerados se formam, criando a teia cósmica de grande escala. Nosso mapa proporciona uma visão observacional muito mais nítida dessa estrutura de sustentação da matéria escura”, disse Scognamiglio.
Fonte ==> Folha SP – TEC