Quem lê esta coluna provavelmente não aguenta mais me ouvir falar da importância do “tempo profundo”. Mas o que hei de fazer se ele dá as caras até quando a gente se põe a falar de construção civil?
Considere, pois, o seguinte. A menos de 100 km de onde escrevo estas linhas, na zona rural do município de Leme (SP), a areia que talvez tenha sido usada para construir as paredes à minha volta está sendo extraída do solo. A matéria-prima vem do que os geólogos chamam de formação Piramboia, resultado de deposição de sedimentos na beira de rios que corriam por ali entre o meio do Triássico e o começo do Jurássico –ou seja, entre 220 milhões e 190 milhões de anos atrás.
Trocando em miúdos, parte da areia da construção civil no interior paulista é um resquício do momento geológico em que os dinossauros e os mamíferos estavam surgindo e se diversificando. Nada mais justo, portanto, do que usar esse recurso da forma mais racional possível, certo?
É aqui que entra um estudo publicado recentemente no periódico científico Journal of Applied Geophysics. Pesquisadores da USP e da Universidade de Toronto usaram uma tríade de métodos para enxergar o “iceberg” de areia debaixo do solo de Leme, bem como as demais estruturas da área minerada, como o lençol freático e camadas de rocha. Dispor desses dados é já estar com o mapa da mina na mão –e ainda pode evitar danos ambientais numa atividade cuja ficha corrida muitas vezes não é das melhores no Brasil.
Fico tentado a usar a expressão “raio-X” para descrever o retrato do subsolo produzido pelo estudo. Mas, conforme me explicou o coordenador da pesquisa, Jorge Luís Porsani, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, os métodos usados na pesquisa não envolvem esse tipo de radiação. Em vez disso, dois deles têm a ver com diferenças na capacidade de resistir a correntes elétricas ou a conduzi-las nas diferentes camadas investigadas –fatores que são influenciados pela presença de umidade ou pela porosidade das rochas, por exemplo.
Para tirar partido dessas propriedades, a equipe usou a chamada ERT (tomografia de resistividade elétrica), capaz de “enxergar” a uma profundidade de até 60 metros, e o TEM (eletromagnético no domínio do tempo), que, no caso do estudo em Leme, alcançou camadas 600 m abaixo da superfície. O último integrante da sopa de letrinhas é o GPR (radar de penetração no solo), que chega a até 40 m de profundidade e faz exatamente o que o nome diz: tal como outras formas de radar, suas ondas eletromagnéticas “batem e voltam” nas estruturas do subsolo e ajudam a traçar um retrato do que está lá embaixo.
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Graças à capacidade de detectar diferenças na umidade das camadas, os métodos conseguem determinar exatamente onde está a areia seca, que pode ser extraída e comercializada com mais facilidade, e onde está a areia saturada (de água), embaixo do lençol freático, de exploração mais custosa.
“Caso o minerador se interesse pela areia saturada, isso envolve um complicador: ele vai precisar rebaixar o lençol freático bombeando a água, retirar a areia úmida e levá-la a um forno para secagem”, explica Porsani.
De acordo com o pesquisador, o custo para fazer essa análise prévia equivale a cerca de 10% do que se investe no empreendimento. Na ponta do lápis, diz ele, os resultados podem contribuir para uma operação sustentável, ao otimizar a exploração mineral e reduzir os impactos ambientais.
Fonte ==> Folha SP – TEC