Se houvesse justiça neste mundo de Virgínias e Carlinhos Maias, o Sapajus libidinosus seria muito mais famoso que todos eles somados. E não apenas pelo nome científico maroto. O macaco-prego-amarelo, como também pode ser designado em português brasileiro, é conhecido por seu vasto repertório tecnológico e cultural (o que é mais do que podemos dizer sobre alguns influenciadores…). Agora, pode ser que a espécie se notabilize também por um mistério: a estranha pelagem clara de um filhote, identificado numa população do primata que vive no interior do Ceará.
Não se trata de albinismo, como seria natural imaginar de início, mas de leucismo (ambos os termos têm prefixos que significam “branco”, mas o do albinismo vem do latim, enquanto o do leucismo deriva do grego, assim como em “leucócitos”, os populares glóbulos brancos do sangue). Trata-se de uma mudança do padrão de coloração causada por mutações em diferentes áreas do DNA, e o resultado é a perda parcial ou total do pigmento melanina em pelos ou penas —a cor dos olhos não costuma ser afetada, ao contrário do que vemos em coelhos e ratos albinos, com seus costumeiros olhos vermelhos.
Primatas leucísticos são muito raros e, até agora, não havia nenhum caso registrado para o gênero Sapajus, conforme contam Tiago Falótico e Tatiane Valença, ambos pesquisadores do Neoprego (Grupo de Pesquisa sobre Primatas Neotropicais). Em artigo na revista especializada Primates, a dupla explica que o filhote foi avistado pela primeira vez no Parque Nacional de Ubajara (CE), área de 6.300 hectares de mata na serra da Ibiapaba.
Na primeira observação, feita por Falótico em 23 de agosto de 2025, o macaquinho tinha cerca de três meses de idade e estava sendo carregado no lombo da mãe, da maneira típica da espécie. O primatólogo acompanhou mãe e filhote por 10 minutos nesse primeiro encontro. Não havia dúvidas: a pelagem era esbranquiçada e bem diferente da gradação do castanho-escuro para o negro que caracteriza patas e cauda da espécie.
Um mês depois, o pequeno macho foi avistado outra vez, tanto na cacunda materna quanto explorando o ambiente em volta dela. Revisando vídeos mais antigos feitos no parque cearense, a equipe chegou a identificar um macho adulto com pelagem também atípica, mas de maneira bem mais discreta —ele tinha uma mecha de pelos claros no alto da cabeça.
E o que tudo isso significa? É aqui que o mistério se adensa, ao menos por enquanto. O aparecimento do leucismo pode ser influenciado por fatores como alimentação ruim e poluição —o que, por sorte, não parece ser o caso de Ubajara, área ainda bem preservada e com habitat favorável para a espécie.
Certos primatas às vezes podem agredir companheiros de grupo com aparência significativamente diferente da deles, mas não há indícios de que isso esteja acontecendo no parque.
Por fim, há a preocupação de longo prazo: a característica pode tornar os indivíduos mais chamativos para predadores, por exemplo, e o traço pode acabar se espelhando na população caso ela sofra uma diminuição significativa, com perda de opções de parceiros.
De novo, não parece ser o caso por enquanto, mas convém que os pesquisadores continuem de olho – e que nada disso atrapalhe o espírito inquieto e inovador dos S. libidinosus.
Fonte ==> Folha SP – TEC