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Como coletei o DNA ambiental dos manguezais amazônicos – 18/03/2026 – Ciência Fundamental

Raízes marrons de árvores se estendem em várias direções sobre solo escuro sob céu noturno azul com lua cheia visível ao fundo. Peixes brancos estão espalhados entre as raízes no solo.

Você já ouviu falar no Salgado Paraense? É uma região que compreende 11 cidades na costa do Pará. Pois é: a Amazônia não é feita apenas de água doce. Especialmente ali, na vizinhança com o Maranhão, na chamada Amazônia Oriental, o ambiente costeiro é marcado por forte influência marinha, como abordado recentemente nesta coluna.

Foi nessa região que, em 2024, iniciamos um projeto voltado à coleta de DNA ambiental (eDNA, do inglês Environmental DNA) em áreas de manguezal no Brasil. O objetivo é responder a duas grandes questões da ecologia: 1) o que é mais importante no controle de uma comunidade de peixes —a competição ou a predação; 2) o que determina a sobrevivência dos peixes jovens.

Poderíamos buscar essas respostas em diversos habitats brasileiros, mas escolhemos o ecossistema manguezal. E por quê? Porque ali, em questão de horas —entre marés altas e baixas—, a sobrevivência é levada ao extremo. A competição e a predação atingem níveis máximos, especialmente no verão, quando os recursos se tornam escassos.

Além disso, o manguezal desempenha funções ecológicas essenciais: protege a zona costeira contra a erosão, atua como um importante reservatório natural de carbono (fundamental para a regulação do clima) e, em tempos de insistente exploração de petróleo no norte do Brasil, é o primeiro ecossistema a sofrer impactos em caso de acidentes ambientais.

Escolhemos os rios Telha e Caeté, no nordeste do Pará, como modelos do nosso estudo. O Grupo de Investigação Biológica Integrada (GIBI/UFPA) assumiu o desafio de amostrar ciclos completos de maré, coletando peixes e filtrando água para extrair os fragmentos de DNA no manguezal em diferentes horários da madrugada e ao longo do dia. Exaustos, mas acompanhados por verdadeiros profissionais da pesca da Vila da Telha e de Bacuriteua: dona Lúcia, seu Cunha, Manoel (Kêkê), Raí, Anderson (Baiano), Carlos (o outro Baiano), Gesser, Zidane e dona Odiléia. Sem eles, essa tarefa ecológica simplesmente não seria possível.

A natureza é quem manda. E ali, na Amazônia Oriental, nossa capacidade profissional é posta à prova. Perdemos redes —muitos metros de redes. Ajustamos planos, mudamos rotas, rumos e horários, mas conseguimos completar todo o ciclo de coletas, respeitando rigorosamente o ciclo lunar.

Lugares como a comunidade da Telha são importantíssimos não apenas para a ciência. Registramos dados científicos, sim, mas também algo maior: experiência de vida. Pense bem no valor do peixe que você comeu da última vez. Ele carrega um custo alto —viver da pesca é difícil, e é um trabalho pouco valorizado. Após dez dias entre rios e estradas, concluímos o trabalho no Salgado Paraense, com a esperança de retornar logo mais em julho deste ano para o segundo ciclo de verão.

E as amostras? Vão de Belém para Oslo, na Noruega, onde serão sequenciadas por “metabarcoding”, uma técnica que identifica espécies com base em fragmentos de DNA presentes numa amostra. Só então poderemos responder às duas questões do início deste texto. Depois, vamos devolver os resultados às comunidades da Telha e de Bacuriteua e mostrar aos nossos amigos da pesca algo simples e poderoso: o que os peixes comem.

Mesmo com experiência, esse projeto é um grande desafio para mim. Novas áreas aquáticas e muitas conversas —sobre peixes, redes, motores de barco, mas também sobre sequenciamento genético, linguagem de programação e bioinformática. Praticar ciência de fronteira em cenários extremos é, sobretudo, um grande aprendizado.

O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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