Juliana, 38 anos, conta que estoura seu orçamento todo mês. Então, cansada de ser uma jovem desatinada e sem controle, procurou um terapeuta para reclamar do seu funcionamento caótico e dispendioso.
Seu salário, com todos os descontos, é de R$ 22 mil. Contudo, ela tem um gasto mensal de R$ 27 mil. Logo, ela precisa entender: ou economiza R$ 5.000 ou tenta ganhar R$ 5.000 a mais. Mas este é um ponto cego para Juliana, ela não consegue enxergar a beleza óbvia dos números. Usa frases clichês como “atolada em dívidas” e “endividada até o pescoço” sem notar que essas frases são usadas por tias de elevador (todas as mulheres com 38 anos) e não por jovens doidonas que vivem a vida de forma intensa e desequilibrada.
Contudo, Juliana acredita precisar de medicamentos fortes que controlem alguma doença psiquiátrica severa e sente desespero ao perceber que está completamente à mercê do seu caos. Fez curso de gestão financeira, pediu ajuda ao contador. Eles repetiam: você gasta R$ 5.000 a mais do que ganha. Todo mês. Suas dívidas são exatamente a tabuada do cinco mais os juros acumulados. Pra ouvir tamanha genialidade desses dois profissionais ela teve um gasto extra naquele mês e, nem assim, gastou mais do que R$ 27 mil.
Então Juliana procurou a ajuda de um analista que lhe contou um segredo insuportável: sua vida é sim cheia de métodos, cálculos e planilhas. E você sabe fazer economia, conta de subtração e controle financeiro. Você não é uma doidona, Juliana, você é puro tédio! Saiu batendo porta, abalada, ofendida, nunca mais pisou naquele consultório.
Juliana consegue ser fiel a seus parceiros por dois anos e quatro meses. No exato dia em que 365 dias se somam a mais 365 dias e mais 120 dias, totalizando 850 dias, Juliana pula a cerca.
Para pular a cerca Juliana precisa de três semanas de flerte, três dias de beijo e somente três minutos de sexo para perceber que já não está mais interessada no novo affair. Depois disso ela passa três meses culpada até fazer tudo de novo.
Foi assim com Márcio, seu primeiro namorado, quando ela tinha 15 anos; foi assim com Renato, Daniel, João, Vicente, Rafael e mais um tanto de namorados que vieram depois, e é assim com seu marido Fernando, com quem ela está há 12 anos (e o trai, a cada 90 dias, desde a primeira vez que o traiu logo após completaram dois anos e quatro meses de relacionamento).
Suas amigas feministas e progressistas de esquerda são muito doidonas, mas na verdade são bastante conservadoras e em defesa da família, e disseram à Juliana: para de ser uma maluca transloucada sem controle e sem limites e procure um analista!
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Juliana chegou na análise desesperada, usando frases clichês como “sou quebrada por dentro” e “minha mãe narcisista é a culpada”. Falou que não sabia por que agia assim, o que acontecia, e repetia a frase “é um ponto cego, é um ponto cego”. Foi quando seu analista lhe contou que, infelizmente, ainda que ele não quisesse estragar o barato de Juliana, ela era a amante mais metódica, racional e moderada que ele conhecia. Ela desistiu da psicanálise pra sempre.
Há sete anos Juliana engorda dois quilos por ano. Todo final de mês, Juliana engorda exatamente 166,6 gramas. Ela come tudo que vê pela frente, de forma insana, demente, desvairada, desatinada.
Fonte ==> Folha SP