Em dois momentos da vida tive medo da minha velhice.
Aos 40, quando descobri que estava ficando velha, por meio de uma consulta com uma dermatologista. Com uma lente de aumento, ela me obrigou a enxergar todas as minhas rugas, manchas, defeitos e imperfeições.
Ela me fez ter pânico da decrepitude do meu corpo. E foi assim que começaram as minhas pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade.
Agora, muitos anos depois, meu medo é diferente: medo de morrer e da minha vida não ter tido significado.
Se eu tentar racionalizar, meu medo é porque minha mãe morreu aos 62, meu pai, aos 68, meu irmão, aos 50.
Tenho muito medo de ter câncer como eles tiveram. E cada notícia que leio me mostra que, sim, posso ter câncer.
Também estou com medo de Alzheimer, medo que nunca tive, mas que surgiu porque minha melhor amiga desde os 16 anos está com a doença. E tenho testemunhado, desde 2020, todo o sofrimento que ela sente.
Não tenho filhos e outro medo está me consumindo. Para quem vai ficar tudo o que conquistei na minha vida? E as centenas de diários que escrevi? Vão para o lixo? Vão ser queimados? Comidos pelas traças?
Qual será o meu legado?
Sempre tive muito medo. E, paradoxalmente, sempre precisei de muita coragem para caminhar sozinha e construir o meu destino.
Hoje, sou tudo o que jamais imaginei que poderia ser: professora, pesquisadora, escritora e uma antropóloga malcomportada.
Será que sou mesmo? Aquela menininha magrinha, apelidada de Olivia Palito, apavorada com a violência familiar, escondida dentro do armário para não apanhar e ouvir os gritos e as brigas, conseguiu, sozinha, ser a Mirian Goldenberg que é hoje?
Eu mesma não acredito que consegui. Por isso a urgência de responder tantas perguntas que me angustiam.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Agora, que consegui ser quem eu sou, será que vou ficar doente, morrer, perder tudo o que conquistei? De que adiantou lutar tanto?
Será que não vou ter tempo para saborear tudo o que conquistei? Amor, amizade, escrita, minha própria voz?
Será que desperdicei toda a minha vida tentando provar que tenho algum valor, que não sou a “bosta” que meu pai dizia que eu era?
Será que, apesar do reconhecimento que já tenho, ainda não consegui provar o meu valor nem para mim mesma?
E agora, que já poderia enxergar, aceitar e amar a mulher corajosa e potente que nunca imaginei que poderia ser, será que estou muito velha para gozar a minha vida?
Será que não vou conseguir viver a “bela velhice” que eu tanto enxergo nos meus melhores amigos nonagenários e centenários?
Por que tenho tanto medo de morrer e de tudo o que mais amo ir para o lixo? Ou será que não é só medo da morte?
Será que o medo é de perder tudo, de não ter mais tempo, de não ter conseguido provar o meu valor, nem para mim mesma?
Será que é o medo de ver tudo o que construí com muito trabalho e paixão ir para o lixo?
São três medos muito fortes. Um medo mais material: o que vai acontecer com meus diários e meus bens? Um medo simbólico: o que vou deixar de legado? Um medo existencial: será que minha vida tem algum significado?
Aos 40, o medo era o da decadência do meu corpo: manchas, rugas, bigode chinês, cabelos brancos, pálpebras caídas, pescoço enrugado, pelancas.
Hoje, o medo é de que a minha vida não tenha valido a pena. Medo de não ter conseguido provar ao meu pai –e a mim mesma– que não sou e nunca fui uma “bosta”.
Será que ainda tenho tempo? Ou será que já é tarde demais?
Fonte ==> Folha SP