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A decisão sobre Jesus que dividiu a Igreja oriental – 08/04/2026 – Darwin e Deus

A decisão sobre Jesus que dividiu a Igreja oriental - 08/04/2026 - Darwin e Deus

Com esta coluna, encerramos nosso resumo do desenvolvimento das doutrinas cristãs sobre a divindade na série Como Deus Nasceu. Para fecharmos o arco do desenvolvimento histórico básico dos três grandes monoteísmos, faltarão apenas alguns capítulos sobre o Islã –provavelmente três ou quatro. (Sim, eu também mal estou acreditando.) Desta vez, nosso tema é o debate sobre a natureza de Jesus que cindiu o mundo romano em três grandes campos no século 5º d.C.

Mas, antes de prosseguirmos, um aviso rápido: para quem quer algo mais resumido e consolidado com toda a trajetória da série, inclusive antecipando telegraficamente o que veremos com o Islã, esta Folha publicou faz alguns dias uma reportagem de minha lavra sobre o tema.

O debate de que falamos culminará no Concílio de Calcedônia, no ano 451. As conclusões dele formulam o que, nos séculos seguintes, seria visto como a fé cristã “ortodoxa” no sentido amplo, tanto no Mediterrâneo Oriental de língua grega quanto na Europa Ocidental.

O pomo da discórdia, desta vez, era como exatamente a natureza íntima de Cristo correspondia ao seu papel de Salvador. Por um lado, era indispensável que ele fosse Deus encarnado. Por outro, também era preciso que ele fosse plenamente humano. Do contrário, não haveria a intimidade necessária de Jesus com a condição da nossa espécie para que seu sacrifício de fato redimisse o gênero humano. As implicações, inclusive para a fé das pessoas comuns, podiam ser enormes.

Além disso, porém, a política interna da Igreja era afetada pelos debates. Nessa época, Roma e os papas nela sediados já eram uma força importante. Mas sua zona de influência direta era principalmente a Itália e o norte da África.

Mas era um mundo cristão multipolar. Os patriarcas de Alexandria, no Egito, e Antioquia, na atual Turquia, seguidos de perto pelos de Constantinopla (Istambul), rivalizavam com o pontífice romano quando falavam de temas teológicos.

É nesse contexto que duas grandes posições se confrontaram. De um lado, teólogos ligados a Alexandria formularam o que passou a se designar como monofisismo (do grego “uma só natureza”). Segundo essa visão, quando Cristo se fez homem, sua natureza essencial continuou sendo 100% divina. A humanidade de Cristo teria sido “dissolvida” em sua divindade, como uma gota de mel no oceano.

A visão considerada oposta é o nestorianismo, assim batizado por causa de Nestório, prelado de origem síria que se tornou arcebispo de Constantinopla. É dificílimo explicar com justiça a posição de Nestório na linguagem de hoje. Mas, grosso modo, é como se houvesse um Jesus humano e um Cristo divino convivendo em união e harmonia no indivíduo Jesus Cristo. Maria, por exemplo, seria mãe da parte humana, mas não da parte divina de seu Filho.

Em Calcedônia, ambas as posições foram derrotadas, em parte graças aos argumentos do papa Leão 1º, o Grande. “Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, consubstancial ao Pai em divindade, consubstancial a nós em humanidade, em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”, declarou o concílio. Jesus, assim, teria duas naturezas, a humana e a divina, convivendo na mesma pessoa.

O problema é que muitos cristãos do Mediterrâneo oriental não aceitaram essa decisão.

Em regiões como o Egito, a Síria e a Mesopotâmia, monofisitas e nestorianos criaram estruturas eclesiásticas paralelas, solapando a unidade cristã e, talvez, facilitando o domínio do Islã, tema do nosso próximo episódio. Até lá!



Fonte ==> Folha SP – TEC

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