“Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais… Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe. Só levo a certeza de que muito pouco sei, ou nada sei (…) Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente (…) Estrada eu sou…”
A música de Almir Sater e Renato Teixeira está grudada em mim como chiclete. Por que será?
Desde muito pequena, meu único refúgio para fugir da violência familiar era caminhar descalça nas areias da praia de Santos.
O que será que a menina magrinha pensava nessas horas?
Aos 16 anos, saí de casa e fui morar em São Paulo. Passei a caminhar no parque Ibirapuera. Nas caminhadas, buscava saídas para salvar minha mãe de um marido infiel, violento e alcoólatra.
Aos 20, casei e me mudei para o Rio de Janeiro. Minhas caminhadas diárias passaram a ser no Jardim Botânico. Sentada na grama, com caneta e caderno, escrevi as 600 páginas da minha tese de doutorado “Toda mulher é meio Leila Diniz”.
Depois dos 40, comecei a caminhar na areia da praia, do Arpoador ao Leblon. Durante as caminhadas, anotava muitas ideias para minhas colunas na Folha.
Desde 2023, para me proteger do sol, dou minhas caminhadas em uma pracinha perto de casa.
Como sou uma antropóloga malcomportada, a praça tem sido um verdadeiro laboratório para as minhas pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade. Todos os dias eu converso com cuidadoras, babás, crianças e, sobretudo, com pessoas de mais idade.
Uma das constatações mais evidentes é que as babás e cuidadoras ficam o tempo todo grudadas no celular. Elas não brincam, não escutam e não prestam atenção nas crianças e nos mais velhos.
O que reforça o que contei em uma coluna anterior: os brasileiros ficam online, em média, nove horas e 13 minutos por dia.
Todas
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Algumas mulheres fazem seus exercícios sem parar um só minuto de falar ao celular. Uma delas, todos os dias, briga com o marido, aos berros. E, por mais absurdo que pareça, ela fuma um cigarro atrás do outro.
Tenho vontade de gritar “chaaataaaa”, mas consigo me controlar.
Na semana passada, um personal trainer de idosos foi reclamar, e ela só faltou bater nele.
Fico triste ao constatar que as pessoas têm cada vez menos respeito e paciência para enxergar e escutar os outros, especialmente os mais velhos.
Curiosamente, muitos homens e mulheres, de diferentes idades, passeiam, brincam e até mesmo conversam animadamente com seus cães. E raramente olham para o celular. Por que será?
Caminho, descalça e sozinha, desde pequena. Quando vou caminhar, nunca levo o celular. Levo apenas papel e caneta.
Voltei a caminhar no Jardim Botânico. O parque está lindo, bem cuidado, repleto de turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Todos tirando fotos, com os olhos fixos no celular. Ignorando a beleza da natureza e o canto dos passarinhos. Está sendo difícil encontrar um cantinho silencioso para conseguir escrever.
Estou fazendo um verdadeiro detox das redes sociais. Fico, no máximo, 30 minutos por dia no Instagram para responder aos comentários que recebo, raramente saio com o celular e, quando estou trabalhando em casa, deixo o aparelho desligado.
“Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar”, assim escreveu o poeta espanhol Antonio Machado.
Aprendi que não importa o quanto os outros gritam, e sim o quanto eu continuo a caminhar. Estrada eu sou…
Fonte ==> Folha SP