Na madrugada de 10 de abril, o universitário Daniel Moreno-Gama atirou um coquetel Molotov na entrada da casa do bilionário Sam Altman, CEO da OpenAI, em São Francisco. Em seguida, foi à sede da empresa e ameaçou incendiar o prédio.
Antes do ataque, qualificado por promotores da Califórnia como tentativa de homicídio, Moreno-Gama havia defendido num chat com produtores de um podcast a ideia de “Luigi-ing” alguns CEOs. O verbo no gerúndio não consta em dicionários. É um neologismo sinistro usado por jovens fãs de Luigi Mangione, o assassino do CEO da operadora de seguros de saúde UnitedHealthCare, em 2024.
Dias antes, Chamel Abdulkarim incendiou um depósito da gigante de produtos de consumo Kimberly-Clark, em Ontario, na Califórnia, causando um prejuízo estimado em US$ 600 milhões. Ao ser preso, o rapaz de 27 anos, que trabalhava para a empresa, invocou o exemplo de Luigi Mangione para se apresentar como justiceiro contra salários baixos.
A combinação de impulso à violência e sentimento anticorporativo começou a crescer nos EUA durante a pandemia, quando aumentaram os saques a lojas, estimulados por vídeos das depredações postados online.
Mas o assassinato estilo execução do CEO da UnitedHealthCare, em 2024, parece representar um ponto de inflexão no humor do público, especialmente os jovens, que enfrentam o pior mercado de trabalho da última década.
Entre os americanos de 18 a 29 anos, 41% têm opinião positiva sobre Mangione. Enquanto ele aguarda julgamento numa cela de Nova York, a loja eletrônica Luigi Mangione vende camisetas, canecas e pôsteres, prometendo usar a renda para pagar seus advogados.
Mas partiu do venerando jornal New York Times um debate que atraiu uma enxurrada de críticas. Na série de podcasts “Opinions”, a jornalista Nadja Spiegelman recebeu Jia Tolentino, repórter da revista New Yorker, e Hasan Piker, um streamer da plataforma Twitch, sob o tema “Estamos Prontos Para uma Luta de Classes?“
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No elegante estúdio do Times, os convidados contaram que roubam comida de mercados de luxo como Whole Foods (proprietário: Jeff Bezos) e defenderam furtos como uma saudável reação contra os ultrarricos que “não vivem sob as regras da maioria.” Spiegelman declarou que a nova onda da cultura consumidora são os “microssaques”. Os convidados mencionaram Luigi Mangione, mas admitiram que assassinato não está incluído no seu menu de justiça social.
O podcast não provocou só a previsível reação de publicações sensacionalistas de direita. Comentaristas ponderados questionaram o código moral daquelas três pessoas da elite da mídia local. Piker defendeu a volta de “crimes bacanas”, como assaltos a banco, e Tolentino concordou que seria boa ideia roubar obras de arte do Louvre.
Como é fácil ter alta renda e pele clara o bastante para brincar de Robin Hood em Nova York.
Fonte ==> Folha SP