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Universidades apoiam mães, mas ações são pontuais – 09/05/2026 – Ciência

Mulher de cabelos cacheados e óculos está em pé em meio a vegetação densa, com luz natural iluminando seu rosto e parte do corpo. Ela veste vestido azul com estampa de penas e tem tatuagens visíveis no braço esquerdo. Fundo desfocado mostra árvores e folhagens.

A catarinense Cristiani Derner engravidou aos 18 anos, quando se preparava para tentar ingressar na universidade. “Eu não tinha renda nem rede de apoio”, diz hoje, aos 34 anos, formada em serviço social e dividindo o tempo entre o mestrado, atividades de pesquisa e extensão e a rotina de trabalhadora e mãe.

“Só voltei a tentar entrar quando minha filha já estava com oito anos”, diz ela. “Ser mãe na universidade é estar o tempo inteiro lutando para conseguir permanecer dentro. É sobrecarga e invisibilidade. É encontrar barreiras para além do que uma mulher já sofre”, define, afirmando que a busca não é por tratamento especial, mas por equidade —a garantia plena do direito à educação e às oportunidades que proporciona.

O suporte encontrado por ela veio do projeto Mães na Universidade, que é vinculado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e reúne mães estudantes de diferentes regiões do país.

A iniciativa ilustra um movimento que busca ampliar a permanência de mulheres com filhos no ensino superior e na pesquisa.

Nacionalmente, professoras de pós-graduação grávidas ou com filhos de até dois anos estão entre os públicos que contam com novos incentivos. O Programa Aurora, lançado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) em março, oferecerá entre 200 e 300 bolsas para apoiar a continuidade das atividades acadêmicas dessas mulheres. As bolsas preveem a contratação de pesquisadores assistentes.

“A ideia é que essas mulheres tenham apoio para que não precisem se distanciar. [A maternidade] é um período em que a gente deve cuidar para que elas permaneçam, para que não sejam excluídas do mercado de trabalho”, disse à Folha a presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho. A iniciativa, segundo ela, busca reduzir o chamado “efeito tesoura” na carreira acadêmica, em que a presença feminina diminui nos níveis mais altos dessa trajetória. A expectativa é que o edital seja lançado ainda neste mês.

Mas a diretora-executiva da Ampet (Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras), Vanessa Suany, questiona o alcance da medida. “Estudos do movimento Parent in Science mostram que crianças impactam a vida das mães estudantes até pelo menos os seis anos de idade.”

Suany diz ser necessária uma articulação entre ministérios para que outros problemas que envolvem a empregabilidade das mulheres mães sejam enfrentados.

A presidente da Capes concorda que é preciso agir mais e afirma que movimentos no país para reduzir assimetrias que afetam as mães ainda são pontuais. “Não há uma política estruturante e sistêmica nas universidades.”

Na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), o edital Mães Pesquisadoras foi lançado em 2024 para financiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação submetidos por professoras com filhos. Foram atraídas mais de cem interessadas e a instituição acabou ampliando o número de contempladas originalmente previsto, de 15 para 40.

Em 2025, outro edital da universidade selecionou 15 mães estudantes, de diferentes áreas, oferecendo bolsa de iniciação à pesquisa e a proposta de o apoio ser mantido até concluírem a graduação.

Uma das contempladas nesse edital foi a administradora e aluna de ciência e tecnologia Thallyana Souza, 42, que desenvolve pesquisa sobre energia eólica offshore, orientada por uma professora também mãe. “O projeto estimula a valorização e inclusão de nós, mães, na pesquisa e mostra nossa capacidade de produzir e ter acesso a novas oportunidades.”

Segundo a pró-reitora de Pesquisa da instituição, Silvana Zucolotto, ampliar o acesso desde a graduação é estratégico. “Se a gente não dá oportunidade na base, talvez essas mulheres nunca terão a oportunidade de chegar a se tornar professoras, pesquisadoras.”



Minha graduação levou dez anos para ser concluída, mas, graças à rede de apoio e às ações do projeto, eu consegui me formar

Na UFRJ, o grupo Mães na Universidade surgiu em 2021 a partir de demandas coletivas de mães. As ações —todas gratuitas— incluem oficinas, apoio psicológico, rodas de conversa e preparação para ingresso na pós-graduação.

“Na graduação existem mais políticas de permanência para as estudantes do que na pós-graduação, porém as mães da graduação enfrentam mais desafios”, afirma Mithaly Corrêa, 35, uma das idealizadoras.

Ela cita carências de infraestrutura adequadas para mães e filhos e questões como a vulnerabilidade vivida por muitas das graduandas, sem carreiras consolidadas e empurradas para trabalhos informais.

Hoje também pesquisadora, ela ingressou na graduação na UFRJ em 2013, aos 22 anos e mãe de três filhos —gêmeos à época com três anos e um bebê de seis meses.

“Minha graduação em geografia levou dez anos para ser concluída, mas, graças à rede de apoio e às ações do projeto, eu consegui me formar”, disse à Folha na quarta-feira (6), véspera de defender a dissertação de mestrado em educação na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

No Ministério da Educação, existe a expectativa de que um relatório do Grupo de Trabalho para a Política Nacional de Permanência Materna nas Instituições de Ensino Superior Brasileiras, em fase de consolidação, e o Censo da Pós-Graduação, com publicação prevista para este ano, resultem em diretrizes para políticas nacionais na área.

Uma das ideias, segundo o ministério, é estender o tempo de jubilamento estendido para as mães estudantes e ofertar bônus em editais internos. Além disso, um desdobramento prático das recomendações do grupo tem sido a instalação de Cuidotecas —espaços projetados para oferecer suporte às mães e aos pais universitários.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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