Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

‘Escravos’, as estátuas que Michelangelo descobriu – 26/05/2026 – Marcelo Viana

'Escravos', as estátuas que Michelangelo descobriu - 26/05/2026 - Marcelo Viana

Em 1505, o papa Júlio 2º encomendou ao artista Michelangelo a construção de uma sepultura monumental, incluindo vários níveis arquitetônicos e mais de 40 estátuas. Entre elas, um grupo de seis personagens, chamados Escravos, representando almas aprisionadas.

À morte do pontífice, o orçamento para a obra já tinha sido drasticamente reduzido e a partir daí a tendência só se agravou, claro. Michelangelo chamava esse projeto sua “tragédia da sepultura”, pelos muitos dissabores que lhe trouxe durante décadas. Quando a construção foi, enfim, concluída na Basílica de São Pedro Acorrentado (Roma), em 1545, o monumento era apenas uma sombra do grandioso projeto original. Nenhum dos Escravos foi incluído.

Duas dessas estátuas foram terminadas, mas Michelangelo deixou as outras quatro inacabadas. Falta de tempo? Perda de interesse nas peças, devido às sucessivas alterações do projeto? Necessidade de trabalhar em encomendas com retorno financeiro mais favorável? Ou gesto deliberado do artista, consciente do poder expressivo da incompletude da obra? Não sabemos.

Mas sabemos que Michelangelo via a escultura como ato de libertação: para ele, a figura existe previamente na pedra e o escultor apenas a liberta de seu invólucro amorfo. Escreveu: “O melhor artista não possui nenhum conceito que o mármore em si não contenha já, dentro de seu excesso”. À vista destas estátuas incríveis, é difícil discordar dele. Eu nunca poderei esquecer a primeira vez que vi, num velho livro escolar da minha mãe, uma foto de “Atlas”, que continua sendo meu Escravo favorito, seu torso poderoso lutando para emergir do mármore ao redor onde, como negar?, ele sempre existiu desde que o tempo é tempo.

Hoje, os Escravos estão entre as obras-primas mais famosas de Michelangelo, tendo adquirido um simbolismo que transcende em muito o escopo inicial. Tal como muitos de meus colegas, gosto de pensar nelas como alegorias do trabalho do matemático, extraindo padrões da massa amorfa do desconhecimento em que estão ocultos: tal como “Atlas”, conceitos e teoremas apenas aguardam que os libertemos de seus invólucros.

Nem todo mundo concorda. Outro grande escultor, o francês Auguste Rodin, afirmava que a obra resulta da vontade criativa do artista, por meio de esforço e decisão, não por meio de revelação. Para ele, a arte não existe até que seja criada pelo artista. Será que é assim para a matemática também? Será que suas ideias são efetivamente criadas, inventadas em vez de descobertas?

Estranhamente, o físico Carlo Rovelli se baseou na metáfora dos Escravos de Michelangelo para argumentar contra (!) a ideia de que os conceitos matemáticos têm existência própria. Segundo ele, é verdade que no bloco de mármore existe uma estátua de “Atlas”, mas “nesse exato e mesmo bloco existem infinitas estátuas possíveis”. Quando Michelangelo tira o excesso “ele não descobre a única estátua residente ali: ele seleciona, entre infinitas opções, a estátua que faz sentido para ele”.

Transferindo essa ideia para a matemática, Rovelli afirma que “o que os matemáticos fazem não é descobrir o que já obedece à natureza, e sim selecionar uma certa matemática, dentro de infinitas possibilidades lógicas”, de acordo com a nossa fisiologia, a física do mundo em que vivemos, ou os nossos conceitos estéticos.

Mas o fato de que o trabalho do matemático tem uma componente de seleção não é novidade, e não prova o que o autor pretende. A descoberta das geometrias não-euclidianas, no século 19, já mostrou que diferentes matemáticas podem coexistir: as geometrias curvas de Lobachevsky e de Riemann são tão reais quanto a geometria plana de Euclides. Igualmente válidas e consistentes, todas elas merecem ter emergido do mármore amorfo em que um dia estiveram mergulhadas.



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados