Até o início da década de 1990, o goleiro no futebol podia agarrar sem punição qualquer bola tocada para si por um companheiro de time. A equipe que estava na frente do marcador punha-se a dar quantos passes conseguia para o seu arqueiro, que amiúde se atirava no chão com o balão nos braços para gastar tempo. Tediosos períodos de uma partida eram consumidos nessa pasmaceira, num esporte já caracterizado pelas escassas oportunidades de pontuar em relação a outras modalidades.
A introdução da falta pelo uso da mão em recuos feitos com os pés desencadeou um progresso na competitividade. Fundiu os goleiros na sintaxe do jogo e selecionou aqueles hábeis como jogadores de linha nos fundamentos de passe e domínio. Contribuiu para a compactação, a alta concentração de atletas dos dois times em porções de um terço ou menos do campo, onde a bola está em disputa.
A compactação ganhou novo impulso com outra pequena mudança, ocorrida há sete anos. Dispensou-se quem recebe o passe do tiro de meta de tocar na bola apenas fora da grande área. É recente a cena, hoje comum, da saída da meta com o goleiro entre dois companheiros na linha da área menor. A alteração aumentou os recursos da equipe que parte do campo defensivo para tentar manter a bola sob controle, assim como as possibilidades de pressão do adversário nessa retomada de jogo.
No mesmo objetivo de favorecer a fluidez e o tempo efetivo de jogo, a Copa do Mundo que começa na próxima quinta (11) vai acrescentar inovações nas regras. Quem for substituído e demorar mais de dez segundos para sair do campo penalizará o seu time em pelo menos um minuto com um jogador a menos. Laterais e tiros de meta serão revertidos se demorarem mais de cinco segundos para ser cobrados.
Já no capítulo da aplicação correta das regras, a Copa vai ampliar as possibilidades da revisão por vídeo, que poderá intervir também para corrigir marcações de escanteio e expulsões decorrentes de segundo cartão amarelo e detectar as frequentes infrações na área logo antes da cobrança de escanteios.
O VAR, adotado em larga escala a partir da Copa de 2018, foi a melhor resposta da governança do futebol para o centenário incômodo dos erros cruciais da arbitragem. A ferramenta tecnológica se mostrou revolucionária ao evitar a validação de gols em situação de impedimento clamoroso e vice-versa, ao inverter anulações em campo de gols marcados em posição claramente regular. Nos lances de pênalti e expulsão, porque bastante dependentes de interpretação, o avanço parece mais nuançado.
O aspecto negativo das intervenções dos árbitros de vídeo é acrescentar interrupções a uma modalidade já sujeita a um bocado delas, que fica mais emocionante e atrativa quanto menos a partida para. A depender de até onde se queira ir, satisfazer a demanda por correção no apito poderá prejudicar o atendimento à exigência de mais tempo contínuo de bola em disputa. Como há medidas nas duas direções entrando em vigor neste torneio mundial, será interessante observar o seu efeito somado.
A regulamentação do futebol ilustra alguns dilemas e obstáculos de quem se mete a ordenar as atividades humanas. Muita regra persiste apenas porque está ancorada em várias décadas de uso. Por que o juiz é o senhor quase absoluto seja da aplicação da lei, seja do controle do tempo de jogo? Por que corre e reina sozinho por mais de 7.000 metros quadrados onde interagem 22 jogadores? Por que 22 competidores, e não 20 ou 24? Por que bandeirinhas? Porque tem sido assim há gerações.
Tão idiossincráticos quanto o legado da tradição, no esporte e na vida, são os processos de alteração de regras. Neles convivem uma gama de escolhas possíveis, exigências contraditórias e desbalanços de poder. As mudanças nem sempre encontram plena aplicabilidade e às vezes produzem efeitos inesperados e adversos. Ainda assim, o longo curso da história mostra que por essa estrada sinuosa é possível estimular práticas mais íntegras e prazerosas e menos violentas. Não só no futebol.
Fonte ==> Folha SP