Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

O mercado duvidou, mas elas construíram assim mesmo – 10/06/2026 – Natalia Beauty

Ilustração colorida mostra 24 mulheres de diferentes tons de pele e cabelos, organizadas em cinco fileiras. Elas vestem roupas variadas e algumas usam crachás, sobre fundo azul escuro com borda decorativa.

Toda vez que leio um novo relatório sobre empreendedorismo feminino, encontro o mesmo padrão de que os números crescem, as barreiras persistem, e o subtexto é sempre o de uma surpresa que não deveria mais surpreender ninguém. As mulheres estão empreendendo mais, em todo lugar, com mais consistência do que se imaginava, e com resultados melhores do que o mercado apostava.

Acompanho esse movimento há anos e o que mais me chama atenção não é nenhum dado isolado, mas, sim, a mudança de tom. Há uma década, falar de empreendedorismo feminino era quase sempre falar de obstáculos do crédito negado, do investidor cético, da dupla jornada. Hoje ainda existe tudo isso, mas o centro da conversa se deslocou e o que está em evidência agora é a performance, e ela é difícil de ignorar.

Pesquisas globais mostram que empresas fundadas por mulheres geram mais receita por real investido do que as fundadas por homens, que nos mercados emergentes —justamente onde as condições são mais adversas— a paridade de gênero no empreendedorismo está sendo alcançada mais rápido do que nos países ricos, e que países como Arábia Saudita —que há uma geração sequer permitiam que mulheres assinassem contratos—, hoje figuram entre os que mais avançaram em presença feminina nos negócios. A velocidade dessas mudanças é o que mais me impressiona.

No Brasil, esse movimento tem uma dimensão muito particular. Somos um país onde mais de 35,6 milhões de domicílios são chefiados por mulheres, e onde o recorde de novos negócios abertos por mulheres foi quebrado em 2025.

Esses números não nascem de tendência cultural abstrata. Nascem de necessidade, de inteligência e de uma capacidade de adaptação que as mulheres brasileiras desenvolveram antes mesmo de ter o ambiente favorável para isso.

Uma das coisas que mais valorizo nesse ecossistema é o empreendedor que olha para o outro empreendedor e reconhece nele as mesmas estradas mal sinalizadas que já percorreu.

Quem desbravou esse terreno conhece cada obstáculo de perto: o crédito que não vem, o contrato que intimida, a dúvida que aparece sempre no pior momento, e é justamente por isso que tem condições de abrir caminho para quem decide trilhar o mesmo percurso depois. Esse gesto, de quem já passou e volta para sinalizar, é o que transforma ecossistemas e encurta distâncias.

O capital ainda chega de forma desproporcional, o reconhecimento ainda vem atrasado, mas os negócios estão sendo construídos assim mesmo, e estão sendo construídos bem. As mulheres não precisam provar que conseguem empreender, porque elas já provaram. O que falta agora é que o ecossistema evolua na mesma velocidade que elas.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados