Entender os seres vivos tomando como base a seleção natural normalmente funciona que é uma beleza. Mas cientistas são humanos, você sabe, e, durante muito tempo, foram quase sempre membros do sexo masculino também. O que acabou criando uma perspectiva “machocêntrica” que pode distorcer as coisas um pouco –ou mesmo um muito.
Não há de ser surpresa nenhuma se eu disser que essa distorção fica particularmente gritante quando estamos falando do comportamento sexual. Machos e fêmeas, afinal, estão presentes numa ampla gama de espécies (nem de longe todas, é bom que se diga) e, muitas vezes, parecem ter interesses evolutivos bastante diferentes.
Segundo uma corrente de pensamento, que já cheguei a reproduzir um tanto acriticamente no passado (“mea culpa, mea maxima culpa”), a diferença seria resultado direto do tamanho dos gametas, ou células sexuais. O mais comum, de fato, é que machos produzam uma quantidade muito grande de gametas pequenos e móveis –espermatozoides como os da nossa espécie são o exemplo clássico–, enquanto as fêmeas produzem células sexuais bem maiores e mais escassas (é a visão que costumamos ter dos óvulos).
A ideia é que isso leva a consequências comportamentais claras. Os óvulos, por seu tamanho, carregam nutrientes essenciais para o desenvolvimento do embrião, o que também significa um investimento alto de energia por parte do organismo da fêmea. Assim, ela tenderia a escolher com muito mais seletividade os machos com os quais acasala, justamente para não desperdiçar seus preciosos gametas com parceiros incapazes de gerar prole saudável; e a dedicar mais tempo e esforços para cuidar da prole.
Já os machos se dão ao luxo de produzir gametas à vontade e, portanto, sua seletividade é muito menor. Tenderiam, assim, a buscar o acasalamento com o máximo possível de fêmeas. Em resumo, a diferença de gametas produziria fêmeas recatadas e seletivas e machos atirados e promíscuos. Uma consequência adicional é que, nas espécies que formam casais, a infidelidade seria uma abordagem lógica apenas para os machos, e não para suas parceiras.
É claro que o fato de todas essas expectativas casarem (sem trocadilho) direitinho com a visão tradicional sobre a natureza dos sexos entre seres humanos na cultura ocidental (e em muitas outras) deveria produzir ao menos alguma desconfiança. E, de fato, o cenário real parece ser bem mais complicado.
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Primeiro, um estudo clássico com diversas espécies de moscas-das-frutas, que usou a diferença de tamanho entre gametas para tentar comprovar que ela influencia o padrão de acasalamento de cada sexo, parece ter cometido uma série de erros metodológicos gritantes (as mosquinhas foram usadas porque, em algumas espécies, os machos produzem espermatozoides enormes). Novas análises indicam que não existe uma relação tão direta entre uma coisa e outra quanto se imaginava.
Em segundo lugar, pensando no comportamento sexual propriamente dito, as variações são inúmeras. Mesmo nas espécies que apresentam monogamia social, com formação de casais duradouros, muitas fêmeas são tão promíscuas quanto os machos.
Nesses casos, a parceira pode estar buscando o que, do seu ponto de vista, seria o melhor dos dois mundos: a ajuda do parceiro “oficial” para obter alimento e cuidar dos filhotes, de um lado, e os genes considerados “sexies” de outros machos na vizinhança, os quais podem ajudá-la a produzir bebês tão atraentes quanto o verdadeiro pai.
E a coisa pode ser ainda mais complicada em espécies que não formam casais. Em primatas, por exemplo, a fêmea pode buscar o máximo de promiscuidade possível para que nenhum macho tenha certeza de ser o pai de seus filhotes. Isso faz com que todos os machos do bando contem com ao menos algum incentivo para proteger os bebês, ou pelo menos, para não ser agressivos com eles.
Para quem busca uma visão menos caricata das assim etrias evolutivas entre os sexos, em especial levando em conta o papel das fêmeas, é recomendadíssima a leitura do livro “Bitch”, da zoóloga britânica Lucy Cooke (ainda sem versão em português, infelizmente).
Fonte ==> Folha SP – TEC