Nossa compreensão da Via Láctea ficou um pouquinho mais doce.
Cientistas disseram ter detectado, pela primeira vez, açúcar no espaço interestelar, fornecendo uma pista importante sobre as origens do açúcar na Terra e possivelmente o surgimento da vida. O achado é descrito em um artigo publicado nesta segunda-feira (13) na revista Nature Astronomy.
“É um açúcar de verdade, autêntico”, disse o astroquímico Brett McGuire, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), sem participação no estudo.
As origens do açúcar na Terra são misteriosas. Os cientistas sabem que ele deve ter estado presente desde muito cedo, porque é uma necessidade para o surgimento da vida. Contudo, experimentos de laboratório para recriar as condições químicas necessárias falharam repetidamente em criar essas moléculas.
Então, como o açúcar veio parar aqui? Os cientistas dizem acreditar que ele possa ter chegado à Terra por impactos de asteroides e cometas no início da história do planeta, porque vários tipos de açúcares, incluindo glicose e ribose, foram encontrados em asteroides e meteoritos.
Mas a questão de onde vieram antes disso permanecia sem resposta.
“As pessoas tinham muito interesse em tentar encontrar essas moléculas”, disse a astroquímica Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia na Espanha, que liderou o novo estudo. No início dos anos 2000, quando a busca por açúcar ganhava força, mas não apresentava resultados, ela “não tinha muita esperança”.
Nos últimos anos, porém, a astroquímica se tornou mais otimista, à medida que pesquisadores detectaram outras grandes moléculas orgânicas em nebulosas.
O meio interestelar da Via Láctea era um local provável para encontrar açúcar. Ele é formado por toda a poeira e gases entre os sistemas solares e, apesar de ter condições extremas, é “uma impressionante fábrica química”, escreveram os autores do novo estudo. Centenas de moléculas, incluindo alguns blocos de construção do RNA mensageiro celular, foram encontradas ali. E experimentos de laboratório sugeriram que açúcares poderiam se formar a partir de reações químicas em gelos no meio interestelar.
Então, se eles fossem encontrar açúcar, faria sentido achá-lo ali.
Jiménez-Serra e seus colaboradores usaram dois radiotelescópios para observar o centro da Via Láctea, coletando dados sobre as frequências de rádio emitidas pelo meio interestelar. Conforme as moléculas no espaço giram e se movem, elas produzem diferentes frequências.
Ao compararem os padrões de frequências encontrados no espaço com os padrões que as moléculas produzem em laboratórios, os pesquisadores conseguiram identificar quais moléculas estavam lá fora.
Finalmente, encontraram o ponto doce. Um dos padrões de uma nebulosa próxima ao centro da Via Láctea correspondia ao de um açúcar chamado eritrulose.
A eritrulose é composta de quatro átomos de carbono, oito átomos de hidrogênio e quatro átomos de oxigênio.
Quando houve a descoberta, Jiménez-Serra diz que “seu coração começou a bater muito, muito rápido”.
Foi um momento emocionante, mas ela queria ter certeza de que era açúcar. A equipe verificou que não se tratava de alguma outra molécula ou simplesmente um erro. E os resultados se confirmaram.
“Os dados e a análise deles sustentam a conclusão de que a molécula está lá”, afirmou McGuire. “Eles fizeram um esforço extraordinário para descartar todos os possíveis intrusos.”
Os resultados também receberam a aprovação do astroquímico Yoshihiro Furukawa, da Universidade de Tohoku (Japão), que não participou do estudo. Seu trabalho levou à descoberta de açúcares no asteroide Bennu há alguns anos.
A nova descoberta confirma que o açúcar pode se formar sem vida no meio interestelar, e até mesmo antes de estrelas e planetas terem se formado. Esse é um primeiro passo fundamental para a formação de RNA e DNA e para explicar como a vida surgiu na Terra.
Isso também torna mais provável que a vida possa ter se formado em outro lugar.
“Se o meio interestelar é capaz de formar esses ingredientes, eles também podem ser encontrados em outras nuvens moleculares pela galáxia, aumentando as chances de a vida se desenvolver em outros lugares”, afirmou Jiménez-Serra.
E esse açúcar é apenas o começo. A pesquisadora está ansiosa para procurar açúcares maiores, como ribose e desoxirribose, que formam o RNA e o DNA.
Os pesquisadores estimaram que entre 0,5 e 50 milhões de toneladas desse açúcar possam ter sido entregues à Terra durante o período inicial crítico de sua existência.
Igualmente interessante é o que não encontraram: um açúcar um pouco menor, com três átomos de carbono. Como encontraram a versão mais complexa, é surpreendente que não tenham visto a versão mais simples.
“De certa forma, isso desafia as expectativas, com base na química que conhecemos”, afirmou McGuire. “Estou ansioso para ver a comunidade científica se debruçar sobre isso e dizer: O que isso significa?'”
Fonte ==> Folha SP – TEC