No auge, aos 33 anos e com uma rotina intensa de viagens, palestras, aulas e debates, o pesquisador, advogado Ronaldo Lemosum dos maiores especialistas em tecnologia do Brasil, sofreu “uma severa crise de pânico”. Na época, ao assistir um filme na TV da casa dos pais, seu “coração disparou”. Uma ansiedade paralisante tomou conta. Tarefas cotidianas tornaram-se difíceis. O estado de colapso durou seis anos.
É o que ele conta no epílogo do livro “O monge, o iogue e o faquir: Corpo, coração e mente no tempo das máquinas”da editora Todavia, que chega às bancas no próximo dia 4 de agosto. O livro foi compartilhado com exclusividade à EXAME Insight.
“Para alguém que vivia da mente, aquele era o colapso de toda sua identidade. O desenvolvimento exclusivamente mental havia sido tão completo que não existia uma pessoa habitando meu corpo. Havia apenas um operador mental de problemas complexos, desconectado de todo o resto”, lembra Lemos.
É justamente dessa vivência de reestruturação pessoal, em que ele precisou aprender a resgatar a presença física, a sensibilidade emocional e a lucidez equilibrada, que nasce o mapa da obra. Lemos define o livro como “o guia prático que ele próprio gostaria de ter tido durante aqueles anos de reabilitação, oferecendo aos leitores uma ferramenta para identificar e corrigir o desequilíbrio antes que o colapso da exaustão digital e da hiperprodutividade bata à porta”.
Longe de propor um manual de reclusão ou um manifesto contra o progresso, a obra investiga como a tecnologia passou a ditar não apenas o ritmo de trabalho, “mas a própria arquitetura dos nossos desejos e da nossa lucidez, operando como uma força que penetra ‘pela porta da atenção'”.
Para mapear esse cenário, o autor resgata três arquétipos ancestrais: o faquirassociado à via física e à disciplina do corpo; o mongeligado à intensidade dos afetos e ao caminho do coração; e o iogueque representa o intelecto e a busca por clareza mental. Em sua tese central, Lemos demonstra como cada uma dessas dimensões foi “capturada e hipertrofiada” pelo ecossistema digital contemporâneo, transformando-se em versões distorcidas de si mesmas.
“Quando o corpo manda sozinho, vivemos no modo do faquir tóxico. Quando as emoções mandam sozinhas, vivemos no modo do monge dopaminérgico. Quando a mente manda sozinha, vivemos no modo do iogue hipertrofiado”. O faquir representa a “tiranização do espelho e do feed”. O “monge dopaminérgico” ilustra o drama do coração na era dos fluxos contínuos de vídeos curtos, rolagens infinitas e companheiros virtuais de inteligência artificial. E o “iogue acelerado” personifica o esgotamento da sociedade do desempenho. “Profissionais, acadêmicos e fundadores de startups operam suas mentes como motores perpétuos até o colapso do burnout, agravado agora pela tentação do offloading cognitivo. Quanto maior o uso dessas ferramentas, menor o desempenho em testes de pensamento crítico, substituído justamente pelo hábito de terceirizar raciocínios e memória”.
O grande mérito da obra é demonstrar que a fragmentação dessas três dimensões cobra um preço biológico e psíquico intransigível. Para resgatar o controle da carruagem, metáfora clássica na qual “o corpo é a carruagem, os cavalos são as emoções e o cocheiro é a mente”, Lemos argumenta que a tecnologia jamais pode assumir o papel de tutora da consciência humana. Mais do que um diagnóstico contundente sobre as armadilhas da economia da atenção, o livro funciona como um convite lúcido e necessário para recolocar o ser humano no comando da própria existência, lembrando que “o perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número crescente de pessoas acostumadas desde a infância a desejar apenas aquilo que as máquinas podem oferecer”.
Fonte ==> Exame