Especial para o JC
De Cidreira
O expressivo crescimento populacional de municípios gaúchos à beira-mar cria expectativas por um nível de desenvolvimento que desafia a gestão pública. A candidatura do Litoral Norte à protagonista como polo de investimentos e moradia no Estado fica ameaçada a médio e longo prazos se a infraestrutura não acompanhar o mesmo ritmo da expansão urbana.
“O que importa entender isso a migração para o Litoral, hoje, não é apenas de aposentados“, pontua Carlos Paiva, doutor em Economia e consultor na área de planejamento e desenvolvimento regional.
De acordo com o IBGE (2022), dos 10 municípios que mais cresceram em habitantes no Estado, sete estão no Litoral Norte: Imbé (52%), Capão da Canoa (51%), Arroio do Sal (43%), Balneário Pinhal (38%), Cidreira (35%), Xangri-lá (32%) e Tramandaí (31%). Com um salto de 25,87%, a expansão foi quase quatro vezes maior que a do Rio Grande do Sul (1,77%).
O mesmo censo aponta que seis das 10 cidades à beira-mar no Brasil com maior proporção de domicílios de uso ocasional estão na costa gaúcha. Isso, somado à flexibilização das jornadas de trabalho pós-pandemia e a proximidade geográfica da Região Metropolitana, favorece um vaivém via Freeway, aquecendo comércio e serviços de praias para além do veraneio.
Conforme Paiva, entre 2010 e 2022, o número de domiciliados no Corede Litoral passou de 296.083 para 372.693, uma alta de 76.610 pessoas – no mesmo período, Porto Alegre perdeu 76.781 domiciliados. A variação da população nas praias respondeu por 40,53% do incremento populacional gaúcho. “Há décadas que o Litoral cresce de forma extraordinária e é um ponto fora da curva no nosso Estado”, afirma o economista, acrescentando que nunca o volume foi tão grande quanto agora.
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A enchente de 2024 revelou outro diferencial competitivo quando se compara com os Vales e a Região Metropolitana, observa Roberto Morais, professor na Faccat e doutor em Desenvolvimento Regional, atraindo quem busca mitigar riscos ambientais. Embora sem apurar o destino, o IBGE divulgou em junho que o desastre climático motivou a troca de endereço de 349.366. Morais acrescenta que há projeções do Departamento Estadual de Economia e Estatística (DEE) indicando que a região poderá ter o maior crescimento percentual de participação no PIB gaúcho até 2030impulsionado pelo setor de serviços e pela construção civil.
A alta demográfica da região é anterior aos censos mais recentes, como lembra Alexandre Ramos, mestre em Desenvolvimento Regional. De 2000 a 2010, o percentual foi de 21,64% enquanto que, no Estado, foi de 4,97%. “Acredito que isso seguirá ocorrendo, mas infelizmente é um aumento desordenado“, afirma Ramos. Segundo ele, dois perfis de migrantes se destacam: o trabalhador da construção Civil, de baixa renda em busca de oportunidades, e pessoas de maior renda atrás de qualidade de vida. “Existe uma disparidade social imensa entre estes dois grupos”alerta.
Saúde e lixo são os principais desafios para prefeitos
Ao assumir, no início do ano, a presidência da Associação dos Municípios do Litoral Norte (Amlinorte), Marcos Evaldt da Silveira se reuniu com prefeitos da região e ouviu deles preocupação com o crescimento populacional recente, ainda não plenamente documentado pelo IBGE. “Essa é a principal pauta”, afirma ele, que é prefeito de Morrinhos do Sul, localizado a cerca de 40 km de Torres. A seguir, ele comenta os desafios que surgem a partir da chegada de novos moradores.
Silveira diz que é preciso atenção ao crescimento populacional CR/DIVULGAÇÃO/JC
Empresas e negócios – Em qual área existe hoje o maior descompasso entre crescimento populacional e capacidade do poder público: saneamento, mobilidade, saúde, segurança ou energia?
Marcos Evaldt da Silveira – Saúde é o principal. Saúde e lixo tiram o sono dos prefeitos. O Hospital de Torres, que atende a região aqui, está com muitos problemas. Não consegue receber os recursos e se desenvolver na velocidade que o município cresce. A UPA de Arroio do Sal, outro exemplo, funciona quase como um hospital no verão, quando os atendimentos explodem. O número por dia é quase o número da população. É absurdo. Então, a saúde é o principal gargalo. O desenvolvimento do Litoral Norte passa muito por melhorar e qualificar a saúde.
E&N – O que impede uma atuação mais integrada entre os municípios da região?
Silveira – Tivemos um consórcio vinculado à associação com os mesmos 23 municípios que fazem parte da Amlinorte. O consórcio está em processo de extinção, com R$ 80 milhões em dívidas. E isso gera um debate que divide muitos os gestores. Então, tem se tornado difícil a coesão. Além disso, o nosso território é muito heterogêneo. É um grande desafio ter pautas que sejam comuns. São pelo menos três blocos distintos. Os prefeitos vão às reuniões, dialogam, são participativos, têm união. Mas é difícil promover muitas pautas de integração.
E&N – O senhor percebe algum risco de o Litoral Norte perder justamente a qualidade de vida que hoje atrai novos moradores?
Silveira – O grande risco é se a gente não conseguir melhorar os serviços públicos, principalmente saúde, emprego e renda, além de educação.
E&N – Qual atividade econômica poderia reduzir a dependência do turismo de verão e da construção civil?
Silveira – O porto de Arroio do Sal seria a grande virada de chave, como aconteceu e acontece em Santa Catarina. Porque vai trazer empresas, qualificar mão de obra e atrair investimentos.
Fonte ==> Folha SP