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O mundo reduziu o espaço para irresponsabilidades fiscais – 24/08/2026 – Cecilia Machado

O mundo reduziu o espaço para irresponsabilidades fiscais - 24/08/2026 - Cecilia Machado

Os juros reais ao redor do mundo atingiram recentemente patamares que não se viam havia muito tempo.

Nos EUA, o título do Tesouro de 30 anos protegido da inflação superou 3%, a maior taxa de juros reais em quase 20 anos. Na Alemanha, a taxa de juros reais do título de dez anos é a maior dos últimos 15 anos. E o Japão, que conviveu por décadas com juros nominais perto de zero —e com juros reais por muitas vezes negativos– tem hoje a taxa real dos títulos de dez anos em território positivo.

Existem muitas possíveis razões por trás desse fenômeno, mas fato é que tomar emprestado ficou mais caro.

A primeira está relacionada à própria dívida dos governos. No pós-pandemia, os países aumentaram fortemente os gastos públicos, e essa expansão elevou substancialmente o endividamento em praticamente todas as economias.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a dívida bruta passou de 100% para 120% do PIB de 2019 a 2021, mantendo-se nesse patamar desde então. Embora não haja uma notícia recente que explique por que, de repente, preocupações com a solvência possam ter ganhado espaço —a deterioração fiscal já vem ocorrendo há anos—, é razoável haver cada vez mais cautela por parte de quem financia essas dívidas, exigindo um retorno maior para um investimento mais arriscado.

Uma segunda explicação está associada à inteligência artificial, que promete grandes transformações no mercado de trabalho e ganhos expressivos de produtividade.

Aumentos de produtividade estão naturalmente associados a juros mais altos, já que o retorno esperado do capital investido aumenta. Além disso, parte importante da expansão no uso mais intensivo dessa tecnologia está condicionada a investimentos significativos em infraestrutura física, como data centers, chips e energia, financiado também através de dívida.

A maior necessidade de financiamento das empresas também pressiona os juros mais longos. E os investimentos, por sua vez, funcionam como impulsos de demanda que pressionam a inflação e, por tabela, os próprios juros.

Há ainda o expressivo aumento da incerteza, vinda de frentes variadas —de conflitos e guerras a disputas tarifárias e protecionismo comercial. Essas incertezas têm enorme potencial disruptivo, o que eleva o prêmio a termo —aquele exigido para carregar uma dívida por um prazo mais longo. Quanto maior a incerteza sobre como os países vão se ajustar a esses choques, maior o risco assumido por quem financia os governos a prazos mais longos.

A recente mudança na presidência do Fed também pode somar-se à lista de motivos, já que o debate sobre a reformulação do arcabouço de política monetária trouxe dúvidas sobre como será a reação do colegiado à inflação —e essa falta de clareza eleva o prêmio de risco embutido nos juros mais longos.

Entre as mudanças que estão sendo consideradas, está a possível redução do balanço do Fed, que adicionalmente amplia a oferta desses títulos do governo no mercado e pressiona diretamente os juros reais de prazos mais longos.

Entre as possíveis razões por trás dos juros reais mais altos, algumas têm raízes mais estruturais, como a inteligência artificial; outras, como as incertezas ligadas a guerras e conflitos, podem até se mostrar temporárias, mas, por ora, têm duração esperada significativa.

Juros reais mais altos tornam o ambiente global mais desafiador, sobretudo para países com alto endividamento, fragilidade fiscal e forte expansão recente de gastos. Para esses países, o novo patamar de juros exige maior virtude nas contas públicas, mais atenção aos resultados fiscais e à dinâmica da dívida e, sobretudo, uma inflexão clara na trajetória de gastos.

Adiar o ajuste torna a conta cada vez mais cara.



Fonte ==> Folha SP

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