Quem olha hoje para o tamanho da escola de inglês Wise Up e do grupo educacional Wiser talvez não imagine os desvios de rota, as apostas arriscadas e os recomeços que levaram Flávio Augusto, hoje com 54 anos, a construir uma fortuna bilionária e se tornar um dos empresários brasileiros mais conhecidos.
Antes das grandes transações, havia um jovem de classe média baixa que atravessava o Rio de Janeiro de ônibus para vender cursos de inglês, usando telefones públicos para prospectar clientes.
A estabilidade profissional e financeira, naquela época, era o caminho desejado. Aos 13 anos, Flávio começou a se preparar para o Colégio Naval, caminho que poderia levá-lo à carreira militar. Entrou, permaneceu dois anos e acabou expulso. Em entrevista à Forbes Brasil, resumiu o período dizendo que era “indisciplinado, inquieto, insubordinado”. Anos mais tarde, transformaria a experiência em um mantra: a estabilidade, para ele, não existe.
De volta à escola pública, ingressou em Ciência da Computação na Universidade Federal Fluminense, mas a faculdade ficou pelo caminho. As vendas, inicialmente uma forma temporária de ganhar dinheiro, ocuparam o centro da vida profissional. No setor de idiomas, avançou até chegar à diretoria comercial aos 23 anos, mas decidiu abandonar a posição e apostar no próprio negócio.
** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.
VEJA TAMBÉM:
- Ex-catador de papelão aposta no empreendedorismo e cria negócio que fatura R$ 100 milhões
- A brasileira que ajudou a criar o banco que rompeu o domínio dos gigantes do setor
Uma aposta arriscada no cheque especial
Em 1995, Flávio Augusto e a esposa recorreram a R$ 20 mil do cheque especial, com juros que chegavam a 12% ao mês, para montar a primeira escola da Wise Up. O dinheiro mal cobria reforma, aluguel e a contratação da equipe inicial. Havia ainda um detalhe: o fundador de uma escola de inglês não falava inglês. Sua especialidade estava nas vendas e na leitura de mercado, enquanto a parte acadêmica ficou a cargo de profissionais contratados.
A aposta tinha uma tese. Com a abertura da economia brasileira e a chegada de multinacionais, Flávio enxergou um público que precisava se comunicar em inglês para avançar profissionalmente e não queria esperar cinco ou sete anos. Propôs, então, um programa de 18 meses, rompendo com o padrão do setor.
O cheque especial se tornou uma das histórias mais repetidas de sua carreira, mas o próprio Flávio trata o caso com ressalva. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ainda em 2014, sobre o que diria a alguém disposto a repetir a estratégia, respondeu que não aconselharia ninguém a fazer o que fez. “Tecnicamente é desaconselhável.”
No primeiro ano, a unidade chegou a mil alunos. Oito meses depois, abriu uma filial na Avenida Paulista. Em três anos, a operação somava 24 escolas próprias e mais de mil funcionários. O modelo de franquias veio em 2000 e a rede alcançou 396 unidades antes de ser vendida.
VEJA TAMBÉM:
- Fazer bem feito: a imigrante que usou disciplina japonesa para erguer uma rede de hotéis
Da aquisição de time de futebol à recompra do próprio negócio
A expansão não eliminou os tropeços. Em 2008, já com patrimônio acumulado, Flávio Augusto sofreu uma perda financeira fora da Wise Up. O empresário mantinha uma posição alavancada na Bolsa de Valores e perdeu cerca de R$ 12 milhões durante a crise financeira, de um patrimônio que então estimava em R$ 15 milhões.
Em 2013, vendeu a Wise Up para a Abril Educação por R$ 877 milhões. A carga de trabalho, que chegava a cerca de 60 horas semanais, caiu drasticamente, mas a ideia de desacelerar duraria pouco.
Morando nos Estados Unidos, o empresário começou a acompanhar o filho nos treinos de futebol. A arquibancada, entretanto, virou observatório de mercado. Ele percebeu a quantidade de famílias envolvidas com o esporte, estudou a expansão do “soccer” e enxergou uma oportunidade onde não havia planejado investir.
Em poucos meses, Flávio adquiriu o Orlando City, clube de futebol da Flórida que posteriormente passou a disputar a Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol dos Estados Unidos. Em 2021, o clube foi vendido à família Wilf por uma quantia estimada pelo mercado entre US$ 400 milhões e US$ 450 milhões.
Dois anos após se desfazer da Wise Up, Flávio recomprou a companhia por cerca de R$ 390 milhões. Segundo contou à Forbes, a empresa estava menor, o EBITDA havia caído e a inadimplência chegara a 42% após uma mudança da cobrança por cartão para boleto. Nos dois primeiros meses, afirmou ter aportado US$ 16 milhões para reerguer o negócio. Foram, segundo ele, três anos de trabalho para voltar a deixar a operação saudável.
VEJA TAMBÉM:
- Após três recomeços, irmãos empresários criam negócio de mobilidade milionário
Reação à crise da pandemia gera aumento de 5 vezes no número de alunos
Outro teste veio com a pandemia. A Wise Up tinha cerca de 400 escolas quando as restrições atingiram o ensino presencial. A companhia precisou acelerar uma transformação iniciada pouco antes, com uma plataforma online lançada em 2019.
Flávio Augusto recomendou a franqueados a devolução de imóveis e a migração para o digital quando ficou claro que a crise seria longa. Das cerca de 400 escolas, cem foram desativadas e parte das demais se converteu em franquias online. A base de alunos, segundo ele, saiu de aproximadamente 80 mil no início da pandemia para 400 mil depois da mudança.
A Wise Up passou a integrar a Wiser, grupo de educação que reúne diferentes marcas. Em janeiro de 2026, segundo números apresentados pela companhia ao Brazil Journal, a Wiser tinha mais de 500 mil alunos, faturamento de R$ 610 milhões e EBITDA de R$ 220 milhões.
VEJA TAMBÉM:
- O empreendedor bilionário que critica a CLT e atribui sucesso à disciplina militar
O preço de empreender no Brasil
Uma das convicções mais presentes no discurso de Flávio Augusto é a de que empreender no Brasil exige lidar com custos e obstáculos que vão além da concorrência. Em entrevistas a veículos de imprensa e podcasts, o empresário costuma criticar o chamado “custo Brasil”, enfatizando a burocracia, a complexidade tributária, a ineficiência do Estado e as regras trabalhistas, que considera inadequadas à dinâmica das empresas.
A experiência nos Estados Unidos acrescentou um contraste. Ao tratar do Orlando City, Flávio costuma destacar fatores como governança e segurança jurídica do país norte-americano, que associa à previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo.
Apesar disso, o empresário já classificou o Brasil como “um mercado extraordinário”, apesar dos entraves. Para ele, o país que encarece decisões também oferece escala, consumo e espaço para novos produtos.
VEJA TAMBÉM:
- Salim Mattar: o empresário que transformou a própria história em cruzada liberal
Aos 54, Flávio Augusto ainda busca novos negócios
À Forbes, ainda em 2019, Flávio dizia que pretendia encerrar a carreira empresarial ao completar 50 anos e dedicar-se a projetos sociais. Chegou aos 50 e continuou.
Em 2026, voltou a falar em “última jornada”. A nova aposta é uma liga de negócios criada para aproximar empresários em grupos de mentoria e relacionamento. Em maio, o projeto somava 10,3 mil clientes ativos. O dado importa menos como vitrine do negócio do que como sinal de uma inquietação que atravessa três décadas: ele continua começando coisas novas.
Hoje, aos 54 anos, trata o trabalho como diversão. O rapaz que cruzava o Rio de ônibus querendo mudar de vida conquistou há muito tempo a possibilidade de parar. Até agora, escolheu continuar construindo.
* A assessoria de Flávio Augusto enviou informações à Gazeta do Povo, mas o empresário não concedeu entrevista.
VEJA TAMBÉM:
- Como Rommel Barion ergueu uma potência do chocolate apesar do “custo Brasil”
Fonte ==> UOL