Sou capaz de apostar minhas economias (quase inexistentes) que, quando escrevo o nome “Thor”, quem lê esta coluna automaticamente completará a frase com o epíteto “o deus do trovão”. É muito provável que a culpa seja da Marvel ou, em menor grau, dos best-sellers que andaram popularizando a mitologia nórdica nas últimas décadas. E se eu dissesse que o papel meteorológico do filho de Odin é, na verdade, um tanto duvidoso, ao menos levando em conta o que dizem as fontes originais sobre ele? E se o aspecto “trovejante” fosse apenas um elemento secundário e ocasional desse deus?
Essa é uma das ideias contraintuitivas e fascinantes discutidas no livro “Thor e Seus Irmãos: Deuses do Trovão na Escandinávia” (editora Vozes). A obra é de autoria do pesquisador mineiro Victor Hugo Sampaio Alves, que fez seu mestrado e doutorado no programa de pós-graduação em ciências das religiões da Universidade Federal da Paraíba. A instituição já tem algumas décadas de história na dedicação às pesquisas sobre o passado do norte da Europa, inclusive com a criação do chamado Neve (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos).
O que o trabalho de Alves faz é enxergar Thor e divindades conexas num contexto cultural e religioso muito mais amplo sobre a região de origem desses mitos. Isso significa pensar na evolução das narrativas sobre o deus e outras figuras semelhantes no contexto das trocas culturais entre grupos de diferentes origens étnicas no extremo norte europeu.
Nesse elenco diversificado de culturas, temos, de um lado, os nórdicos propriamente ditos —dinamarqueses, suecos, noruegueses e islandeses, falantes de idiomas germânicos da família indo-europeia (durante a maior parte da Idade Média, podemos dizer, simplificando um pouco, que eles se comunicavam em dialetos da mesma fala comum).
Esses povos têm uma longa história de interação com grupos falantes de línguas muito diferentes, da família urálica, como os finlandeses, os estonianos e os “sámi” (popularmente conhecidos como “lapões”). Enquanto os nórdicos adotavam um tipo de politeísmo (adoração a vários deuses) que lembra em diversos aspectos o que estamos acostumados a ver entre os antigos gregos e romanos, por exemplo, os finlandeses e “sámi” parecem ter praticado formas de xamanismo —sistemas rituais e de crença cujo principal elemento é a comunicação direta do xamã com o mundo dos espíritos por meio de estados alterados de consciência.
No papel, são tradições religiosas muito diferentes entre si, mas as ideias circulavam em ambos os sentidos, de tal maneira que é difícil saber quem está influenciando quem. A própria figura do deus Odin, por exemplo, tem atributos xamânicos que podem ter vindo do contato dos nórdicos com seus vizinhos de fala urálica, enquanto seres divinos desses grupos, como o finlandês Ukko e o “sámi” Horagalles, têm elementos que lembram Thor —incluindo, em alguns casos, a associação com poderosos martelos, como o célebre Mjǫllnir (também queridinho da Marvel).
Entender como os deuses e seus atributos evoluíram é de uma complicação infernal porque, em praticamente todos os casos, as fontes literárias —ou seja, os textos escritos que de fato trazem histórias sobre as divindades e sobre como elas eram adoradas— são um bocado tardias. Vale dizer, acabaram sendo colocadas no papel por missionários cristãos ou por escandinavos já convertidos à fé em Cristo. Isso, é claro, significa um distanciamento tanto temporal quanto ideológico em relação aos contextos nos quais esses deuses ainda eram cultuados de forma corriqueira na região.
Em seu livro, Alves não tenta escamotear a complexidade e as incertezas —em vez disso, mostra como as fontes podem trazer retratos bastante diferentes da mesma figura divina. Ao fazer um pente-fino no que os textos medievais de fato dizem sobre Thor, eis o que ele conclui:
“Thor foi o deus que, nas fontes, teve os vínculos mais frágeis com os fenômenos naturais e a regência climática: colhemos, na melhor das hipóteses, informações que constituíam alusões potenciais aos raios e trovões.” O grande destaque que o filho de Odin recebe não tem a ver com as trovoadas, mas com sua força desmesurada: “um deus hercúleo que se porta como inimigo ferrenho da raça dos gigantes, eliminando-os sempre que a oportunidade surge e mostrando-se próximo aos humanos, atuando para protegê-los”.
Já o deus finlandês Ukko, por exemplo, tem um elo muito mais claro com os fenômenos atmosféricos e também é visto como um protetor da humanidade. Mas, ao contrário de Thor, é retratado como idoso, uma figura de avô ou paternal, e a proteção que oferece é indireta, ofertando armas místicas, como espadas flamejantes, aos xamãs que o invocam, em vez de partir pessoalmente para a briga como sua contraparte nórdica.
Para quem deseja entender os métodos que os pesquisadores usam para tentar reconstruir as crenças do passado remoto, o livro é um guia valioso.
Fonte ==> Folha SP – TEC