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Os quatro jalecos – 19/10/2026 – Opinião

Um médico ouve com seu estetoscópio e anota o que uma mulher lhe conta. Ela usa um megafone bem perto do estetoscópio dele. A caneta e o megafone são vermelhos

Eu costumava dizer que conheço três tipos de médicos. Mas a medicina evolui, e com ela a fauna: hoje são quatro.

O primeiro pratica a medicina de butique. Desde a residência, não teve o desconforto de examinar um paciente pobre. Seu consultório tem o silêncio dos lugares caros, e sua clientela paga sem perguntar o preço, que é a forma mais refinada de pagar. Dirige carro importado, frequenta rodas onde todos se conhecem e guarda no celular o número de políticos, artistas e empresários; que, afinal, também adoecem. Muitos são excelentes no que fazem. Ninguém duvida da competência deles; duvida-se apenas do endereço dela.

O segundo vive do SUS ou da universidade pública. Atende no corredor lotado, ensina residentes que ainda acreditam em tudo, pesquisa com uma verba que caberia na conta de um jantar do primeiro. Quase todos são muito competentes e levam uma vida comum, confortável e sem fotografia. Conhecem o Brasil pelo prontuário, que é uma maneira pouco elegante, mas muito precisa, de conhecer um país.

O terceiro faz as duas coisas. De manhã, o hospital público; à tarde, o consultório particular ou de convênio. Atravessa todos os dias a fronteira entre dois países que, por descuido da geografia, ocupam o mesmo território. Muitos são bons médicos, e talvez sejam os únicos que sabem a distância exata entre um lado e outro.

O quarto é uma novidade da espécie: o médico blogueiro. Tem mais seguidores do que pacientes —o que para ele não é um problema, é um plano de negócios. Oferece tratamentos que a ciência ainda não conseguiu compreender, provavelmente porque não há nada a compreender. Publica fotos de viagens, do abdome trabalhado, das grifes que veste com a naturalidade com que outros vestem o jaleco. Nele, a medicina é acessório, como o relógio: serve para combinar com a foto. Chamo isso, sem maldade alguma, de medicina narcisa.

Há, no entanto, algo que os quatro têm em comum, embora só alguns gostem de lembrar. Nenhum deles aprendeu medicina em paciente rico. Aprenderam no ambulatório do hospital universitário, na enfermaria de seis leitos, no corpo de quem não tinha para onde ir e, por isso mesmo, aceitava ser examinado por três estudantes de uma vez. Antes ainda, na sala de dissecação, aprenderam anatomia nos corpos de indigentes, gente que ninguém reclamou em vida e ninguém reclamou depois dela. É uma dívida curiosa: o médico de butique deve suas primeiras lições justamente àqueles que nunca mais voltaria a ver. A gratidão, como se sabe, não consta do currículo.

E eis a explicação para um mistério que poucos se atrevem a decifrar em público: um grupo muito grande de médicos vai votar em Flávio Bolsonaro (PL) para presidente. Alguns com convicção, é verdade. Muitos, porém, de modo sub-reptício, quase envergonhado.

O médico de butique vota em quem promete manter o mundo como está, já que o mundo, visto do consultório dele, está ótimo. O médico narciso vota em quem também sabe posar. E os outros dois, que carregam nas costas a medicina de verdade, muitas vezes votam por aspiração, porque o retrato do sucesso na profissão já não é o do professor do hospital universitário, e sim o do consultório exclusivo ou o do perfil com 1 milhão de seguidores. Vota-se, assim, não no país que se atende, mas no país que se gostaria de frequentar.

Se Hipócrates tivesse existido, estaria hoje coberto pelo manto de mármore negro da vergonha. Sorte a dele, talvez, não ter existido.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

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