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A saúde financeira dos cidadãos – 20/10/2026 – Opinião

A saúde financeira dos cidadãos - 20/10/2026 - Opinião

Dever bem é bom. No Brasil, porém, dever bem ainda é um problema sem solução. O Sistema Financeiro Nacional é tecnologicamente sofisticado e o acesso a produtos e serviços bancários é amplo. Mesmo assim, a saúde financeira dos cidadãos é frágil —e isso pesa sobre o bem-estar do país.

Saúde financeira é a condição que permite à pessoa administrar seus recursos de forma consciente, cumprir suas obrigações, enfrentar imprevistos e aproveitar oportunidades ao longo da vida. Na prática, significa que o dinheiro e o crédito trabalham a favor da pessoa e não contra ela. Renda e acesso a crédito passam a servir ao crescimento e à realização pessoal em vez de virar uma fonte permanente de aflição.


A saúde financeira do brasileiro médio vai mal. Em junho de 2026, 83.737.593 cidadãos estavam negativados no Serasa. Essa situação gera perdas para todos: os cidadãos, que ficam sem crédito e sem perspectiva; as empresas, que vendem menos; os bancos, cujas perdas com crédito superaram, no último ano, o lucro do sistema; o governo, que arrecada menos; e o país, que cresce abaixo do seu potencial.

O número de negativados cresceu todos os anos desde 2021, mesmo com o cenário a favor. Nesse período, o PIB cresceu, a Selic chegou a 2% no início de 2021, o desemprego atingiu o menor nível da série histórica e houve programas de renegociação como o Desenrola. Ainda assim, a inadimplência avançou.

A conclusão é clara: a conjuntura macroeconômica não explica tudo. Fatores microeconômicos, ligados à forma como o crédito é concedido, precificado e cobrado, também pesam. Na raiz do problema está um paradigma de intermediação financeira obsoleto, praticamente o mesmo de meio século atrás.


Hoje funciona uma dinâmica perversa. Quanto maior a inadimplência, mais altas ficam as taxas de juros, mais curtos os prazos e mais difícil o acesso ao crédito. Esse crédito mais caro e restrito, por sua vez, gera mais inadimplência. Nessa intermediação ninguém ganha: perdem as famílias, as empresas, os bancos e o país.

A UGT (União Geral dos Trabalhadores) considera urgente modernizar esse paradigma. Por isso, encomendou um estudo com recomendações para uma intermediação financeira mais saudável, capaz de melhorar a saúde financeira dos cidadãos e, ao mesmo tempo, atender aos interesses das instituições financeiras. O estudo completo está disponível aqui,

Uma intermediação saudável parte de um princípio básico: o capital emprestado precisa ser pago. Para isso, são necessários: equilíbrio de forças entre credores e devedores; transparência; regras claras de precificação; e um arcabouço regulatório capaz de tratar adequadamente o superendividamento.


O estudo propõe cinco conjuntos de ajustes: reinclusão dos negativados; regras de transparência; ajustes na tributação; atuação do Banco Central; e educação financeira. Um ponto importante é que todas as medidas podem ser adotadas de imediato, sem depender de aprovação do Congresso Nacional.

A dinâmica perversa do crédito no Brasil não é uma fatalidade. Ela resulta de escolhas institucionais e, por isso, pode ser revertida. Com as recomendações do estudo, é possível passar de um ciclo em que todos perdem para um em que o crédito volta a cumprir sua função: financiar projetos, gerar renda e promover bem-estar.

Mudar o paradigma é urgente.


TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

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