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Alysson Muotri diz que cortes na Nasa adiaram viagem à ISS – 11/01/2026 – Ciência

Alysson Muotri em reunião no MCTI

Uma missão que pode marcar a primeira viagem de um cientista brasileiro ao espaço está paralisada. A iniciativa, que pretende testar o efeito neuroprotetor de uma droga no envelhecimento precoce do cérebro, depende hoje de uma reavaliação da Nasa ou de alternativas fora da agência espacial americana.

O motivo, segundo Alysson Muotri, são os cortes no financiamento à ciência promovidos pelo governo do republicano Donald Trump em 2025. O neurocientista leciona na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), nos Estados Unidos. Ele se formou em biologia na Unicamp e fez doutorado em genética na USP.

“Atrasos acontecem na ciência, mas essa paralisação foi algo que eu jamais esperava. Estou há mais de 20 anos nos EUA, já passei por governos republicanos e democratas, e a ciência sempre foi prioridade para os dois partidos. Esta é a primeira vez que ela sofre um ataque de corte de financiamento”, disse ele, em recente entrevista à Folha.

A reportagem procurou a Nasa em dezembro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

Recentemente, o editor-chefe do grupo Science, Holden Thorp, classificou 2025 como “um dos anos mais tumultuados da história” da ciência americana em razão dos cortes, que resultaram em demissões e interrupções de estudos. Só a Nasa perdeu em torno de 20% dos seus funcionários. Em março, cerca de 1.900 pesquisadores acusaram o governo de um “ataque em larga escala com a ciência”.

A viagem de Muotri à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) estava prevista para o fim de 2024, conforme anúncio feito em 2023, no primeiro ano da atual gestão Lula (PT). Em junho daquele ano, o neurocientista se encontrou com o presidente e com a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, para apresentar o projeto. Até hoje, só dois brasileiros foram ao espaço: o hoje senador Marcos Pontes, em 2016, e o engenheiro Victor Hespanha, em 2022.

O projeto de Muotri reúne frentes de pesquisa que podem, eventualmente, ajudar a prevenir lesões cerebrais em pessoas com condições neurológicas e também impedir os danos causados pelo envelhecimento em astronautas em missão espacial.

Ao todo, segundo o neurocientista, o projeto acumula nove missões não tripuladas à ISS. Nelas, houve o envio ao espaço de minicérebros para avaliar os efeitos da microgravidade no envelhecimento celular do tecido neural. Os experimentos foram feitos por robôs.

“Temos esse modelo celular que é excelente em recapitular o desenvolvimento cerebral humano, porque ele segue o nosso tempo [idade], mas eu não consigo envelhecer por 80 anos em laboratório para avaliar os efeitos neurológicos. Então a microgravidade entra com esse papel”, afirmou Muotri.

Minicérebros são organoides (conjuntos de células criados em laboratório) com formato tridimensional, incluindo tecidos, vasos sanguíneos e outros componentes, que servem como um modelo experimental do cérebro humano.

Como na ausência de gravidade o processo de envelhecimento celular sofre alterações e, ao retornar à Terra, manifesta-se de forma acelerada, os organoides são usados como modelos para avaliar os efeitos do envelhecimento cerebral na ocorrência de doenças neurodegenerativas, bem como vias possíveis de tratamento e neuroproteção.

“Confirmamos em uma primeira missão que o tecido neural, após um mês no espaço, volta com uma idade equivalente a dez anos passados na Terra. E aí a agência se interessou e fizemos o projeto com a Nasa para descobrir um medicamento neuroprotetor para futuros astronautas em missões espaciais”, diz o pesquisador. “Em contrapartida, nós usamos a estrutura da ISS como uma incubadora para doenças neurológicas aqui em solo terrestre. Essa parceria [com a agência] foi formada em 2019.”

Ainda segundo ele, depois da paralisação do projeto, agências de fomento europeias, chinesas e a SpaceX, de Elon Musk, entraram em contato oferecendo uma alternativa ao financiamento americano. “Temos por enquanto o plano B, que é continuar usando a plataforma autônoma [robô], mas estamos estudando outras propostas. Infelizmente, ainda estamos sem data para a missão tripulada por questões políticas e econômicas dos EUA.”

O custo para o envio de astronautas para realizar os experimentos na ISS em comparação a uma missão com um robô é de cem vezes mais, de acordo com o pesquisador.

“Tudo que a gente podia fazer com a missão não tripulada, a gente fez. Inclusive, a missão mais longa, de seis meses, está em andamento neste momento e deve ser concluída no final de janeiro. A partir de agora precisamos colocar os experimentos em outro nível para acelerar os ensaios clínicos”, diz ele.

Na avaliação do neurocientista, os cortes no financiamento puseram os EUA atrás na corrida espacial e de inovação tecnológica.

“É difícil mensurar os impactos. As consequências vão aparecer daqui a alguns anos, mas o que a gente já adianta é que os EUA perdem competitividade tecnológica. Com a troca do administrador [Jared Isaacman assumiu o posto em dezembro], acreditamos que esse projeto possa ser reavaliado, porque isso mexe diretamente com a saúde do eleitor americano tanto em terra [para as doenças neurodegenerativas] quanto dos astronautas. Se outras agências financiarem, esses países serão detentores da propriedade intelectual desses medicamentos. É um custo muito alto para os EUA.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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