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Antártida: novo mapa mostra montanhas e vales ocultos – 17/01/2026 – Ciência

Mapa colorido mostra a elevação do leito da Antártida em metros, variando de -2000 a 2000 metros, com cores que vão do azul escuro ao amarelo. A península Antártica está destacada à esquerda com a letra

Cientistas elaboraram o mapa mais detalhado até o momento do terreno oculto sob a vasta camada de gelo que cobre a Antártida. O trabalho, publicado na quinta-feira (15) passada na revista Science, revela montanhas, cânions, vales e planícies, além de diferenciar pela primeira vez dezenas de milhares de colinas e outras formações menores.

Para mapear todo o continente, incluindo partes anteriormente não cartografadas, os pesquisadores se basearam nas mais recentes observações de satélite de alta resolução e em um método chamado análise de perturbação do fluxo de gelo, que estima a topografia e as condições subglaciais com base em características da superfície.

O mapa do leito rochoso subglacial pode auxiliar em previsões relacionadas ao recuo da camada de gelo antártico devido à mudança climática. Pesquisas anteriores indicaram que terrenos acidentados, como encostas irregulares e topos de montanhas, podem retardar esse recuo.

“Ter o mapa mais preciso do formato do leito da Antártida é crucial, porque a forma do leito é um importante controle sobre o atrito que age contra o fluxo de gelo, o que, por sua vez, precisamos incluir em modelos numéricos que são usados para projetar com que rapidez o gelo da Antártida fluirá em direção ao oceano, derreterá e contribuirá para o aumento do nível global do mar”, disse o glaciologista Robert Bingham, da Universidade de Edimburgo (Escócia), um dos autores do novo estudo.

Os pesquisadores conseguiram mapear o terreno subglacial com precisão sem precedentes. Por exemplo, eles identificaram mais de 30 mil colinas anteriormente não registradas, definidas como protuberâncias de terreno de pelo menos 50 metros.

A Antártida é cerca de 40% maior que a Europa, 50% maior que os Estados Unidos e aproximadamente metade da área da África.

“Todos esses continentes contêm uma variedade de paisagens muito diferentes entre si, desde imponentes cordilheiras até imensas planícies. A paisagem oculta da Antártida também contém esses extremos”, disse Bingham.

A camada de gelo da Antártida é a maior massa de gelo na Terra e contém cerca de 70% da água doce do planeta. Sua espessura média é estimada em aproximadamente 2,1 km, atingindo 4,8 km em alguns pontos.

As características subglaciais foram inicialmente esculpidas antes que o continente adquirisse sua cobertura de gelo há mais de 34 milhões de anos, sendo depois modificadas pela dinâmica da camada de gelo. A Antártida já esteve conectada à América do Sul, mas se separou devido a um processo chamado tectônica de placas, que envolve o movimento gradual de placas do tamanho de continentes na superfície da Terra.

O mapa revelou uma paisagem com várias características topográficas.

“Possivelmente o tipo de paisagem que muitas pessoas podem conhecer menos são ‘planaltos recortados por vales glaciais profundamente esculpidos’. Posso dizer que isso é muito familiar para os escoceses, mas também é uma paisagem comum em toda a Escandinávia, norte do Canadá e Groenlândia. Na verdade, o fato de que a paisagem que nossa técnica descobriu na Antártida corresponde tão bem a essas paisagens nos dá grande confiança em nosso novo mapa”, disse Bingham.

Os autores do estudo observaram que, até então, a superfície de Marte era mais bem mapeada do que o terreno subglacial da Antártida.

Tradicionalmente, cientistas têm mapeado a paisagem subglacial usando equipamentos de radar suspensos em aviões ou rebocados por motos de neve, de acordo com a glaciologista Helen Ockenden, do Instituto de Geociências do Meio Ambiente na França, autora principal do estudo. “Mas essas pesquisas frequentemente têm lacunas de 5 ou 10 km entre elas, e às vezes de até 150 km”, disse ela.

O método adotado no novo estudo, segundo Ockenden, “é empolgante porque nos permite combinar a matemática de como o gelo flui com observações de satélite de alta resolução da superfície do gelo e determinar como deve ser a paisagem sob o gelo em todos os lugares do continente, incluindo todas aquelas lacunas nas pesquisas. Assim, obtemos uma ideia muito mais completa de como todas as características da paisagem se conectam.”

Os pesquisadores esperam que o mapa possa ser usado em modelos para projetar o aumento do nível do mar, bem como em previsões emitidas pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, que fornece aos governos dados para moldar políticas relacionadas ao clima.

“Agora também podemos identificar melhor onde a Antártida precisa de pesquisas de campo mais detalhadas e onde não precisa”, acrescentou Bingham.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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