A história da vida na Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos, e os humanos modernos viveram em apenas uma pequena fração desse período, nos últimos 300 mil anos. No entanto, diferentemente das outras espécies que habitam ou já habitaram este planeta, a nossa é a única que está pavimentando o próprio caminho rumo à extinção, na avaliação do paleontólogo Michael J. Benton.
Benton, professor da Universidade de Bristol (Reino Unido), é autor do livro “Extinções: Como a Vida Resiste, se Adapta e Evolui” (Edições Sesc), recém-publicado no Brasil.
Em pouco mais de 300 páginas, o britânico desafia a lógica do leitor: as extinções em massa representam destruição, mas também abriram caminho para o surgimento de espécies por meio da evolução, moldando a biodiversidade.
Embora possa parecer otimista, de um ponto de vista adaptativo, isso não deve ser interpretado como argumento para simplesmente “sair matando tudo”, disse Benton, à Folha. “Nós não estaremos aqui para ver, uma vez que os humanos serão uma dessas espécies que vão desaparecer. O erro seria imaginar que a mensagem é: podemos continuar matando as espécies porque tudo dará certo depois.”
A primeira das cinco grandes extinções ocorreu no fim do período Ordoviciano, cerca de 444 milhões de anos atrás. A Terra atravessou uma intensa era glacial, os mares recuaram e aproximadamente 85% das espécies desapareceram. Como quase toda a vida ainda estava restrita aos oceanos, os principais afetados foram organismos marinhos.
Depois veio o Devoniano tardio, há cerca de 372 milhões de anos. Diferentemente de uma catástrofe súbita, foi uma crise prolongada que durou milhões de anos. Cientistas dizem acreditar que mudanças ambientais profundas, incluindo alterações no clima e redução de oxigênio nos mares, levaram ao desaparecimento de cerca de três quartos das espécies.
O terceiro grande evento de extinção e, até hoje, o maior de todos, foi ao final do Permiano (252 milhões de anos atrás), quando 95% de todas as espécies —sobretudo marinhas— desapareceram. A extinção do final do Permiano afetou também organismos terrestres que tinham surgido no período anterior, incluindo alguns répteis e os primeiros ancestrais da linhagem que originaria os mamíferos, e a vida levou cerca de 5 milhões de anos para se recuperar.
Durante décadas, pesquisadores discutiram suas causas, mas hoje a principal hipótese envolve gigantescas erupções vulcânicas na região que corresponde à atual Sibéria. O evento lançou grandes níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, o que provocou o aumento da temperatura global e a acidificação dos oceanos, alterando profundamente o planeta.
Para Benton, esse evento talvez seja o mais importante para entender o presente. “O modelo mais comum não é o impacto de asteroide. É o hipertermal”, explica. Em vez de um ataque súbito de um asteroide, esse evento foi a consequência prolongada de aquecimento global e mudanças ambientais por milhões de anos.
A quarta extinção foi na passagem do Triássico ao Jurássico (201 milhões de anos atrás), eliminando aproximadamente 75% das espécies, tanto nos ambientes marinho quanto terrestre. Mais uma vez, grandes eventos vulcânicos parecem ter desencadeado mudanças climáticas globais.
A quinta e mais conhecida de todas foi a extinção do final do Cretáceo (66 milhões de anos atrás), quando a queda de um meteoro com cerca de 10 quilômetros de diâmetro gerou efeitos no mundo todo, como incêndios, bloqueio da luz solar e alterações climáticas. Os organismos que antes dominavam os ecossistemas terrestres, os dinossauros e os pterossauros, e marinhos, lagartos gigantes aquáticos conhecidos como mosassauros, se extinguiram. Estima-se que 75% das espécies, sobretudo aquelas com 40 kg ou mais, foram eliminadas.
Segundo Benton, à exceção da última, as outras quatro extinções foram associadas a eventos hipertermais, ou seja, o aumento da temperatura global provocou —direta ou indiretamente— essas extinções. Por essa razão, os níveis alarmantes de aquecimento global pós era industrial preocupam, levando muitos climatologistas e especialistas a defender que estamos vivendo uma sexta extinção em massa. “Muitos desses estudiosos dirão que vivemos hoje algo parecido com o observado nesses eventos passados, com um agravante: a taxa de intensidade e a velocidade hoje são muito maiores.”
De acordo com o paleontólogo, a atual crise da biodiversidade, com dezenas de espécies desaparecendo, seja por ação direta humana ou por mudanças ambientais, provavelmente não dará tempo para a adaptação da vida. “Algumas espécies conseguem viver em condições extremas de calor e seca, temos animais especializados vivendo nos ambientes desérticos, mas eles não são felizes. Pode ter certeza que prefeririam viver em climas mais úmidos e amenos, com mais recursos disponíveis”, diz.
“Por outro lado, acredito que está claro para todos os paleontólogos que essas extinções foram ocasionadas por ciclos da Terra (muitos dos eventos hipertermais foram provocados por vulcanismo). Se podemos prever quando a próxima vai acontecer, não faço ideia, mas sabemos que o aumento da temperatura leva à acidificação dos oceanos –e isso já estamos observando em nosso tempo.”
Apaixonado pela sua área desde criança —começou a estudar geologia antes de migrar para a zoologia e, mais tarde, à paleontologia—, o docente afirma que olhar para o passado não serve apenas para procurar sinais de catástrofes futuras. O registro fóssil também guarda segredos de quão extraordinária foi a vida na Terra e o quanto há ainda para descobrir sobre ela.
“Uma das funções da paleontologia é maravilhar. Achamos que conhecemos a vida olhando para o presente, mas quando olhamos para o passado encontramos coisas para as quais não existe nada parecido hoje”, diz Benton.
Fonte ==> Folha SP – TEC