Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Artemis 2 usa tecnologia de 1970 e projeto dos anos 2000 – 06/02/2026 – Ciência

Artemis 2 usa tecnologia de 1970 e projeto dos anos 2000 - 06/02/2026 - Ciência

A arquitetura para o voo lunar da Artemis 2 foi estabelecida em 2011, nascida das ruínas do defunto programa criado pela Nasa em 2005 para o retorno à Lua, ainda durante a administração de George W. Bush. É uma ideia antiga, com tecnologias antigas. A virtude é que sabidamente pode funcionar. O risco é que é tudo muito caro, complicado e lento.

Batizado Constellation, o programa surgiu na esteira do acidente com o ônibus espacial Columbia, que obrigou a agência espacial americana a repensar todo o seu programa tripulado. Daí veio a decisão de aposentar aqueles veículos em 2011, com o fim da construção da Estação Espacial Internacional, e investir em um novo projeto de exploração além da órbita terrestre.

Originalmente, o programa teria quatro elementos: dois lançadores, uma cápsula e um módulo lunar. Os lançadores, chamados Ares 1 e Ares 5, seriam baseados em tecnologias desenvolvidas para os ônibus espaciais, a cápsula seria a Orion —essencialmente a mesma do programa atual, em design selecionado pela Nasa em 2006— e o módulo lunar seria o Altair. O pacote completo era referido pelo próprio administrador da agência, Mike Griffin, como “Apollo com esteroides”, referindo-se a uma arquitetura que podia realizar as mesmas coisas que o antigo programa Apollo, mas com maior capacidade de transporte de carga e astronautas.

Nos anos seguintes, contudo, todos os elementos do programa acabaram subfinanciados, levando a gestão seguinte, sob a presidência de Barack Obama, a reavaliar a iniciativa, concluir estava numa trajetória insustentável e cancelar o programa como um todo. Em vez disso, a gestão Obama queria que a Nasa abraçasse parcerias comerciais e focasse seus esforços numa futura missão tripulada a Marte.

A decisão causou muito rebuliço, até porque o programa espacial americano não é apenas científico-tecnológico, mas também um programa de empregos. E dezenas de milhares de empregos altamente qualificados desapareceriam de lugares como Huntsville (Alabama) e Houston (Texas) se o programa dos ônibus espaciais terminasse sem um substituto à altura.

Resultado: o Congresso em 2011 resgatou certos elementos do antigo Constellation, ressuscitando o Ares 5 (que se tornaria o SLS) e a Orion (incrementada por uma parceria com a ESA, Agência Espacial Europeia, para o desenvolvimento de seu módulo de serviço), mas eliminando o Ares 1 e o Altair.

Missão a lugar nenhum

Durante alguns anos, os dois veículos foram desenvolvidos sem clareza de para que serviriam. Na origem, foram projetados para missões lunares, mas tinham especificações que o tornavam, ao menos de início, menos capazes que o antigo par Saturn 5/Apollo. A pedido da gestão Obama, a Nasa “cozinhou” um plano para eles, que envolveria a visita a um asteroide.

A proposta era peculiar: uma nave não tripulada capturaria um pequeno asteroide próximo à Terra e o colocaria numa órbita ao redor da Lua, onde a Orion o visitaria com astronautas, que fariam uma caminhada espacial até a superfície do pequeno pedregulho espacial.

Nova correção de rota seria feita apenas na primeira gestão Trump, em 2017, com o estabelecimento do programa Artemis e a restituição do objetivo de retorno à Lua. Além dos elementos já em desenvolvimento —o SLS e a Orion—, o novo programa incluiu a estação orbital lunar Gateway, que seria construída nos mesmos moldes da Estação Espacial Internacional, com os mesmos parceiros (menos a Rússia), e com uma contratação comercial do sistema de pouso humano, para substituir o módulo lunar Altair, cancelado em 2010. Foi estabelecida então a meta de realizar o primeiro pouso lunar tripulado do programa em 2024.

O Grande Foguete Laranja

Tendo a empresa Boeing como contratante principal da Nasa para o SLS, o foguete só ficou pronto para voo em sua primeira versão em 2022. Àquela altura, com mais de US$ 30 bilhões gastos em seu desenvolvimento, e um custo adicional de US$ 2,5 bilhões por voo, o veículo de grande porte já se mostrava uma espécie de elefante branco.

São vários os problemas do projeto: tecnologia obsoleta (ele usa literalmente os mesmos motores projetados para os ônibus espaciais nos anos 1970), complexidade extrema na fabricação e operação e um ritmo de voos extremamente lento, em que mesmo os mais otimistas não viam o SLS voando no máximo uma vez a cada dois anos.

Ainda assim, quando realizou sua primeira missão, lançado a partir da plataforma 39B do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em 16 de novembro de 2022, ele se tornou o foguete mais poderoso em operação no planeta. Parecia então e, até certo ponto, continua sendo o caminho mais curto de volta à Lua, na corrida que travam EUA e China pelo retorno tripulado ao satélite natural.

Não muda o fato de que o ritmo modorrento com que é lançado e o custo exorbitante de cada lançamento torna tudo bem complicado. A missão Artemis 1, não tripulada, demorou meses até ser lançada, enquanto a Nasa tentava lidar com constantes vazamentos de combustível durante seu abastecimento na plataforma. Mais de três anos depois, os mesmos problemas surgiram durante o “ensaio molhado” (teste de abastecimento e contagem regressiva) realizado na última segunda-feira (2) com o SLS da Artemis 2.

Os problemas levaram a agência a suspender a tentativa de lançar a missão em fevereiro e a empurrá-la para março. Nesse meio tempo, novos testes serão feitos na plataforma. Caso não seja possível corrigir os problemas até março, o foguete terá de ser recolhido de novo ao prédio de montagem, o que pode significar um atraso mais significativo.

Em contrapartida, a essa altura há foguetes que podem fazer sombra ao SLS, operados de forma mais rápida e eficiente por empresas privadas. Os que mais se destacam são o Starship (da SpaceX, disparado o mais ousado e potente de todos, mas ainda em desenvolvimento) e o New Glenn (da Blue Origin, um pouco menos potente que o SLS, mas já operacional).

Tudo isso faz pensar que a atual arquitetura lunar, com o SLS, deve acabar sendo suplantada para futuras missões —talvez até para a Artemis 3, que hoje conta com o superfoguete da Nasa.

Cápsula Reutilizável

A espaçonave Orion, que tem como contratante principal a empresa Lockheed Martin, parece ter um futuro mais promissor. Não só ela foi projetada para ser parcialmente reutilizável, em contraste com o SLS que é totalmente descartável, como também pode vir a ser adaptada para voar impulsionada por outros foguetes, como o New Glenn, o Vulcan e o Falcon Heavy.

Isso não quer dizer que esse lado do programa não tenha enfrentado desafios. O mais notável dele foi um desgaste inesperado do escudo térmico da cápsula em sua reentrada durante a missão Artemis 1. Aquele voo, em 2022, não foi tripulado. O próximo será tripulado, e um problema com o escudo térmico poderia significar risco para os astronautas.

A Nasa realizou testes exaustivos para entender o que aconteceu ao escudo térmico e está confiante de que, com uma nova trajetória de reentrada atmosférica, a cápsula da Artemis 2 pode voar no estado em que está —com um escudo térmico idêntido ao da 1. Para os próximos, contudo, a agência pretende fazer um redesenho, de forma a torná-lo ainda mais seguro.

Todos esses esforços vêm na esteira de levar os americanos mais próximo da linha de chegada: a primeira alunissagem tripulada do século 21. O programa chinês promete realizar tal façanha até 2030. A Nasa tem a Artemis 3, que teria o primeiro pouso, marcada para 2028. Mas ninguém acha esse prazo realista.

O módulo de pouso (Starship) não está pronto, uma alternativa de última hora com um módulo Blue Moon da Blue Origin ainda não está consolidada, e os trajes para as caminhadas lunares também não estão prontos. Se o próximo SLS levar tanto tempo quanto o anterior para chegar à plataforma, mesmo que todo o resto funcione, o voo não aconteceria antes de 2029. A essa altura seria loucura cravar quem vai chegar primeiro.



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados