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Astrônomos descobrem ‘quase-galáxia’, relíquia do Cosmos – 23/01/2026 – Ciência

Campo estelar com várias galáxias visíveis em fundo escuro. Região central em tom púrpura brilhante destaca área circular pontilhada, indicando possível concentração de matéria ou fenômeno astronômico.

O estudo desses objetos também pode contribuir para uma melhor compreensão da natureza da matéria escura, incluindo que tipo de partícula ela pode ou não ser, e de como exatamente a matéria escura influencia a forma do Universo que pode ser visto.

O Universo continua a surpreender aqueles que o estudam. No começo deste mês, astrônomos anunciaram a descoberta de um novo tipo de objeto cósmico, algo que é quase uma galáxia. O que lhe falta é um ingrediente crucial: estrelas.

A quase-galáxia está a cerca de 14 milhões de anos-luz da Terra —um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, 9,5 trilhões de quilômetros. Foi a nona nuvem encontrada associada a uma galáxia espiral próxima, levando ao seu nome: Cloud-9 (ou Nuvem-9).

O objeto consiste em uma névoa de gás hidrogênio que os astrônomos dizem acreditar estar envolta em um aglomerado de matéria escura, a substância invisível que permeia o Cosmos e molda sua estrutura abrangente.

“Não há nada parecido com isso que tenhamos encontrado até agora no Universo”, disse a astrônoma Rachael Beaton, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial (Estados Unidos), em uma reunião da Sociedade Astronômica Americana na cidade de Phoenix no dia 5 deste mês.

“É basicamente uma galáxia que não chegou a ser”, acrescentou ela.

Cloud-9 é o primeiro exemplo confirmado do que os astrônomos chamam de Relhic, abreviação de Reionization-Limited H I Cloud (nuvem de H I limitada por reionização). Tais objetos são ricos em hidrogênio gasoso, mas desprovidos de estrelas. São galáxias fracassadas consideradas quase tão antigas quanto o próprio tempo, fósseis primordiais que podem ajudar os astrônomos a entender as condições necessárias para o crescimento das galáxias.

O estudo desses objetos também pode contribuir para uma melhor compreensão da natureza da matéria escura, incluindo que tipo de partícula ela pode ou não ser, e de como exatamente a matéria escura influencia a forma do Universo que pode ser visto.

A principal teoria para a estrutura e evolução cósmica postula que estruturas de matéria escura, conhecidas como halos, são abundantes por todo o Universo. Acima de certa massa, a gravidade desses halos pode atrair gás suficiente para desencadear a criação de estrelas, no fim formando uma galáxia.

Mas a teoria igualmente prevê que halos de matéria escura de massa um pouco menor possam existir, e que esses objetos acumulariam gás sem abrigar estrelas. Os astrônomos que buscam esses objetos tentam detectar ondas de rádio emitidas pelo próprio gás, uma vez que não produzem luz estelar.

Em 2023, astrônomos na China relataram pela primeira vez a Cloud-9 como um objeto potencialmente sem estrelas. Observações subsequentes, coletadas com o Telescópio Green Bank na Virgínia Ocidental (EUA) e o Very Large Array no Novo México, fortaleceram a suspeita de que o objeto não continha estrelas.

Ainda assim, os astrônomos não podiam descartar a possibilidade de que a Cloud-9 fosse uma galáxia anã escura, com estrelas muito fracas para serem encontradas usando observatórios terrestres.

Em 2025, uma equipe de astrônomos observou, usando o Telescópio Espacial Hubble, a Could-9. Eles determinaram que a quantidade de matéria escura nela tem cerca de 5 bilhões de vezes mais massa que nosso Sol, um halo que circunda aproximadamente um milhão de massas solares de gás hidrogênio.

De acordo com o astrônomo Gagandeep Anand, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial que liderou a análise, outras galáxias anãs com uma quantidade similar de gás hidrogênio possuem uma quantidade comparável de massa estelar. Mas os astrônomos identificaram apenas um objeto nas proximidades da Cloud-9 que poderia ser uma estrela. (Esse objeto também pode ser uma galáxia de fundo.)

“É claro que não há uma quantidade substancial de estrelas aqui”, disse Anand. “Isto não é uma galáxia anã fraca.”

A astrofísica Priyamvada Natarajan, da Universidade Yale, chamou a descoberta da Cloud-9 de “muito tentadora” e um primeiro passo sólido para testar diferentes modelos teóricos para a matéria escura, bem como identificar outras estruturas escuras no Universo que até agora escaparam à detecção.

A próxima questão a abordar, segundo Natarajan, que não esteve envolvida no trabalho, é quão abundantes são os Relhics em diferentes épocas do tempo cósmico, algo que exigirá um telescópio futuro com técnicas de observação mais sensíveis.

“Acho que é hora de começar a traçar e planejar um”, disse ela.

Anand considera sua equipe sortuda por ter encontrado até mesmo um Relhic; é uma janela por meio da qual os astrônomos podem estudar a parte escura do Universo que existe além do brilho intenso das estrelas e galáxias. Mas ele diz acreditar que a Cloud-9 não seja única. “É apenas o primeiro que encontramos. Deve haver outros.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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