A aurora boreal deslumbrou durante a noite em uma das maiores tempestades de radiação solar em décadas, riscando os céus da América do Norte e do norte da Europa com explosões de vermelho, verde e laranja.
Se você ficou inspirado, não está sozinho.
A aurora boreal tem intrigado os humanos por milênios. Estudiosos identificaram representações em pinturas rupestres pré-históricas, na Bíblia e outros textos históricos antigos, e em vários mitos e lendas.
Os inuítes acreditavam que as luzes eram tochas acesas pelos espíritos dos mortos para guiar novos espíritos a um reino superior, escreveu Harald Falck-Ytter em “Aurora: As Luzes do Norte na Mitologia, História e Ciência”, de 1999 (em tradução livre).
Algumas culturas, incluindo uma tribo indígena siberiana, viam o fenômeno como um sinal de parto iminente. Na China antiga, um registro escrito de 2.600 a.C. dizia que a mãe de um imperador havia engravidado depois de ver “um grande relâmpago circulando ao redor” de uma estrela no céu do norte, “com a luz brilhando por todo o campo”.
As luzes do norte também cativaram os antigos gregos e romanos. O filósofo e biógrafo grego Plutarco descreveu “uma nuvem flamejante que não permanecia em um só lugar, mas se movia com movimentos complexos e regulares”.
No primeiro século d.C., o filósofo romano Sêneca maravilhou-se com a variação nas cores da aurora: “Algumas são de um vermelho muito intenso; algumas têm uma chama fraca e pálida; algumas têm uma luz brilhante; algumas pulsam; algumas são de um amarelo uniforme sem descargas ou raios emergentes”.
A aurora boreal recebeu seu nome científico de Galileu no início do século 17, numa época em que os estudiosos da Renascença estudavam intensamente o fenômeno. Ele a nomeou em homenagem a Aurora, a deusa romana do amanhecer.
O astrônomo Edmond Halley, que dá nome ao cometa Halley, relacionou as luzes do norte ao campo magnético da Terra, iniciando pesquisas sobre a ciência por trás delas. Ele esperava morrer sem vê-las, mas finalmente teve a chance em 1716, aos 59 anos.
Outros cientistas posteriormente confirmariam a hipótese de Halley. As luzes do norte acontecem quando partículas carregadas do Sol, transportadas pelo vento solar, colidem com gases na atmosfera superior da Terra, guiadas em direção aos polos do planeta por seu campo magnético.
As luzes também inspiraram muitos artistas.
“Aurora Boreal”, uma pintura de 1865 do pintor paisagista americano Frederic Edwin Church, mostra um navio preso no gelo ártico sob listras turquesa e vermelhas no céu noturno. Ele baseou a pintura não na observação direta, mas em esboços e descrições de Isaac Hayes, um explorador polar que havia visto a aurora boreal durante uma viagem em 1861.
No mesmo ano em que a pintura foi feita, a aurora boreal inspirou Herman Melville a escrever o poema “Aurora Boreal”. Ele comemorava o fim da Guerra Civil Americana, durante a qual as luzes do norte chegaram tão ao sul quanto a Virgínia.
A cadência irregular do poema ecoa as luzes cintilantes que descreve: os “Recuos e avanços”, as “Transições e realces” e as “milhões de lâminas que brilhavam”.
Nas últimas décadas, as luzes do norte animaram canções de bandas de rock como Death Cab for Cutie e Renaissance, entre outras.
A letra da canção “Aurora Borealis” de 1976, do cantor country conhecido como C.W. McCall, é particularmente evocativa. Conta uma história de observação das estrelas no Colorado, vislumbrando a Via Láctea sobre Wyoming e vendo as luzes do norte de Montana.
“Elas são como chamas de alguma fogueira pré-histórica, saltando e dançando no céu e mudando de cores”, ele canta. “É como o equinócio, a mudança das estações: verão para outono, jovem para velho, então para agora”.
Na Noruega, as luzes do norte foram celebradas em uma maravilha arquitetônica moderna.
A Catedral das Luzes do Norte, concluída em 2013, apresenta uma fachada sinuosa de titânio e paredes de concreto inclinadas projetadas para imitar as formas espiraladas de uma aurora. Sua torre se estende por 47 metros em direção ao céu.
Fonte ==> Folha SP – TEC