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Baleias: cachalotes cercam mãe em parto e carregam filhote – 30/03/2026 – Ciência

Vários cachalotes nadam juntos em águas azuis do oceano, criando espuma e ondulações na superfície.

Quando uma fêmea de cachalote tem o seu filhote, essa espécie desenvolve um notável trabalho em equipe. Biólogos documentaram várias adultas cercando uma mãe enquanto ela dava à luz. Depois, elas ergueram o recém-nascido para fora da água enquanto ele dava suas primeiras respirações.

Com base em observações feitas na costa da Dominica, no leste do Caribe, os pesquisadores ofereceram o relato mais detalhado até hoje do processo de nascimento em cachalotes ou em qualquer cetáceo —o grupo que inclui baleias, golfinhos e botos— em ambiente selvagem.

As descrições constam de dois artigos que saíram na última quinta-feira (26) nas revistas Science e Scientific Reports.

O episódio de cooperação foi testemunhado em 8 de julho de 2023 e envolveu 11 cachalotes: dez fêmeas, incluindo a mãe, de quase dez metros de comprimento, e um único macho adolescente.

Cientistas do projeto Ceti documentaram tudo com equipamentos de vídeo e áudio.

O processo de nascimento durou 34 minutos, desde o surgimento da nadadeira caudal da mãe até o parto do filhote.

“Observamos um período de cuidado altamente cooperativo logo após o nascimento”, afirmou Alaa Maalouf, integrante do projeto Ceti e autor principal de um dos estudos.

“As baleias formaram um agrupamento muito compacto ao redor do recém-nascido, tocando-o repetidamente, apoiando-o com seus corpos e se revezando para erguê-lo e empurrá-lo em direção à superfície. O comportamento de elevação continuou por várias horas”, acrescentou ele.

O filhote foi erguido à superfície menos de um minuto após nascer.

“O nascimento é um momento de alto risco para os cachalotes porque os recém-nascidos são inicialmente imóveis e indefesos, assim como os humanos, e precisam de assistência imediata de outros para alcançar a superfície e dar sua primeira respiração, evitando o afogamento”, disse o biólogo e coautor da pesquisa David Gruber, presidente do projeto Ceti.

O comportamento coordenado de elevação já havia sido documentado em orcas, falsas-orcas e belugas. Ele pode remontar à época em que o último ancestral comum dessas espécies viveu, há mais de 30 milhões de anos, segundo os pesquisadores.

As vocalizações emitidas pelas baleias mudaram em momentos críticos, incluindo o início do trabalho de parto e a interação com baleias-piloto-de-aleta-curta que chegaram ao local. Horas após o nascimento, os cachalotes se dispersaram em grupos menores e mais típicos de forrageamento.

Os cachalotes que cooperaram durante o parto vieram de dois grupos familiares normalmente separados.

“O que torna isso especialmente marcante é que o apoio ultrapassou os laços de parentesco. Grupos que costumam ficar mais separados durante a busca normal por alimento pareceram se reunir durante o parto, sugerindo que a sociedade dos cachalotes pode ser construída com base em mais do que apenas laços familiares próximos. Além disso, a escala e a estrutura dessa cooperação apontam para um alto grau de sofisticação social e cognitiva”, disse Maalouf.

Assim como outros mamíferos marinhos, os cachalotes são animais altamente sociais. Essas baleias, cujos maiores machos chegam a 18 metros de comprimento, são mergulhadoras de grandes profundidades e se alimentam de presas como lulas-gigantes. O último registro científico de um nascimento de um cachalote havia sido em 1986, limitado a observações escritas.

Os cachalotes mantêm sistemas sociais complexos nos quais unidades familiares matrilineares estáveis de 10 a 12 indivíduos cooperam na busca por alimento e nos cuidados com os filhotes.

“Os cachalotes machos deixam seus grupos natais no início da adolescência. A avó, mães e filhas viverão juntas por toda a vida como uma unidade”, afirmou o coautor da pesquisa Shane Gero, biólogo-chefe do projeto CETI. “As fêmeas vivem nessas unidades para defender e criar os filhotes de forma cooperativa, enquanto os machos adultos vivem solitários, vagando em busca de parceiras.”

Gero chamou de “uma surpresa fascinante” o fato de um macho adolescente também ter participado do evento registrado.

“Os cachalotes especificamente compartilham características surpreendentemente semelhantes às dos humanos. Eles têm os maiores cérebros de qualquer espécie e possuem funções superiores como pensamento consciente e planejamento futuro, além de fala e sentimentos de compaixão, amor, sofrimento e intuição”, disse Gruber.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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