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Bares para bon vivants preocupados com o clima – 02/06/2026 – Daniel de Mesquita Benevides

Bares para bon vivants preocupados com o clima - 02/06/2026 - Daniel de Mesquita Benevides

No dia em que Cortázar conheceu o cubano Lezama Lima, saíram para jantar. Depois, o autor de “O Jogo da Amarelinha” relatou que o criador de “Paradiso” bebia seu vinho como um alquimista que observa um líquido precioso numa redoma.

Faz todo o sentido, pois o estilo do escritor induz a uma lenta degustação. Sensualista, maximalista, o dândi Lima se alonga por 40 páginas em sua obra-prima para descrever um prato caribenho. Faz da literatura um banquete (nada platônico).

As bebidas não poderiam faltar. Em outra parte, declara meio misteriosamente que os titãs da mitologia não têm força diante dos moinhos de vinho. Nada como o poder da seiva de Baco. Essa abundância sensorial, que inclui a paisagem tropical de Cuba, faz pensar num ecossistema fervilhante.

Não consta que o bar Paradiso em Barcelona tenha alguma relação com o livro. Mas poderia ter. Eleito em 2022 o melhor do mundo, se destaca pela exuberância barroca e a ousadia na montagem dos sabores. Moldado em formas orgânicas de madeira, é um ecossistema próprio, com pegada ambientalista.

Seu princípio é o do lixo zero, em que nada se perde, tudo é aproveitado. Daí que cada casca de fruta é utilizada, todo o lixo plástico é transformado e a sazonalidade dos ingredientes é respeitada, com prioridade para produtos locais, de pequenos agricultores.

As metamorfoses ecológicas que se revelam no balcão nascem num laboratório que fica ao lado. Há elementos que são filtrados por terra, espumas e vapores que provêm aparência mágica e um gim próprio que é vendido em garrafas retornáveis. A fachada, no centro histórico da cidade de Gaudí, parece um empório modesto de pastrami. O paraíso fica atrás de uma porta de geladeira. Pecadores são aceitos.

Os bares sustentáveis são uma tendência há algum tempo. Nem só de hedonismo despreocupado vive o universo etílico, afinal. Isso tem ressonância especial nesta sexta (5), Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi instituída no longínquo ano de 1972, na Conferência de Estocolmo, a primeira da ONU sobre o assunto.

O Espaço Zebra, em São Paulo, é outro exemplo de diversidade. Capitaneado por Néli Pereira, que escreveu o indispensável “Da Botica ao Boteco”, oferece misturas originais com ervas, raízes, cascas e plantas brasileiras. O Native, em Singapura, também foca insumos locais, naturalmente asiáticos.

Já a dupla de canadenses que toca o premiado Trash Tiki, de Londres, prepara seus coquetéis com ingredientes colhidos no lixo. Usa utensílios simples, para estimular o mesmo procedimento na casa dos bon-vivants com coração verde. E confere um toque de humor, ao revestir os drinques sustentáveis com estética tiki, ou pop-exótica, no estilo “Piratas do Caribe”.

O coquetel a seguir leva xarope de casca de abacaxi, elemento espinhoso que o folclore associa a um problema complicado. Aqui é simples. Basta cobrir as cascas de dois abacaxis com açúcar (e afeto), macerar e coar depois de oito horas em repouso.

Kindly use

  • 30 ml de rum
  • 30 ml de Cynar
  • 30 ml de suco de limão
  • 30 ml de xarope de casca de abacaxi

Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Decore com uma fatia de limão.



Fonte ==> Folha SP

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