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Bocejo é contagioso até entre gestante e feto – 14/05/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Bocejo é contagioso até entre gestante e feto - 14/05/2026 - Suzana Herculano-Houzel

Somos macacos-de-imitação, todos nós: temos a tendência a repetir as ações que vemos os outros fazerem. Vittorio Gallese, neurocientista da Universidade de Parma, na Itália, foi um dos membros da equipe que, no início dos anos 1990, demonstrou como isso acontece, com a descoberta do que eles chamaram de neurônios-espelho. Estes são neurônios do córtex cerebral pré-motor que não só organizam ações motoras –ou seja, um aumento na sua atividade tende a causar uma determinada ação em seguida– como também são ativados pela visão da mesma ação, em cujo caso o resultado é a sequência visão da ação –ativação interna do comando da ação– imitação.

Neurônios-espelho foram inicialmente alardeados como um tipo específico de neurônios, mas então outros pesquisadores começaram a testar neurônios em suas partes favoritas do córtex cerebral, e hoje sabemos que neurônios-espelho não são especiais. Eles foram apenas o primeiro caso descoberto de um princípio fundamental de funcionamento do cérebro: a sua organização em alças fechadas, ou circuitos recíprocos de feedback, onde os neurônios que começam a preparar uma ação também já vão ativando os neurônios que representam as consequências sensoriais daquela ação, que reforçam de volta o preparo daquela ação e assim em diante. A bola de neve culmina na execução da ação, e no processo emerge, junto com a preparação do movimento, a sensação do que estamos prestes a fazer —e a oportunidade de cancelar tudo.

Isso significa duas coisas. Primeira: o espelhamento não é uma propriedade individual dos neurônios-espelho, nem especial deles. E segunda: o que quer que ative os neurônios que representam as consequências sensoriais de uma ação, mesmo observadas nos outros, tem chances de levar à ativação dos neurônios que causam aquela ação. Resultado: qualquer ação pode em princípio ser provocada pela percepção das suas consequências… inclusive nos outros.

As consequências sociais da nossa tendência intrínseca à imitação são claras. Somos muito mais susceptíveis a imitar as ações de pessoas com quem nos identificamos –ou será que nos identificamos mais com aquelas pessoas que tendemos a imitar? Provavelmente as duas coisas.

Mas um novo estudo de Gallese e sua equipe publicado recentemente na Current Biology demonstra que o bocejo é contagioso também onde não há possibilidade alguma de contágio social, ou cognitivo: entre gestante e feto. Após ver um ator bocejar, mas não simplesmente abrir e fechar a boca, dois terços das gestantes estudadas bocejaram também cerca de 90 segundos depois —e, em outros 90 segundos, 80% dos fetos dessas gestantes, observados por ultrassonografia, também bocejaram.

A observação, inclusive com a mesma latência entre o bocejo de um e o do cérebro seguinte, indica que a bola de neve que culmina em um bocejo leva uns 90 segundos sendo rolada no cérebro, e então gera não só a ação, mas algo mais no corpo que, talvez pelo sangue, chega ao cérebro do feto e começa tudo de novo.

O que mais me diverte nisso tudo é a indicação de que o contágio comportamental é apenas incidentalmente social, pois não importa se a bola de neve começa a rolar pelos nossos próprios neurônios pré-motores, pelos sentidos, ou por alguma mudança no sangue. O contágio é inevitável, simples consequência de como nossos circuitos cerebrais são organizados.

Referência

D’Adamo G., Gallese V (2026) Prenatal behavioral contagion through maternal yawning and fetal resonance. Current Biology 36, 1-7.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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