O canal de TV dos EUA Notícias da CBS anunciou a suspensão da transmissão de uma reportagem que iria ao ar no tradicional programa “60 Minutos” sobre a megaprisão em El Salvador. O local abriga centenas de deportados venezuelanos enviados pelos EUA. A decisão da CBS gerou críticas e suspeitas de censura até mesmo da jornalista autora da matéria.
A emissora vinha anunciando que transmitiria a reportagem na noite do domingo 21, mas duas horas antes do programa, a empresa informou que decidiu adiar sua exibição para uma data ainda não definida.
Tratava-se de uma reportagem crítica não apenas à prisão, chamada de Cecot, com relatos de práticas de tortura, mas também crítica ao governo americano de Donald Trumpque tem deportado para o local venezuelanos que entram ilegalmente nos EUA.
“Nossa reportagem ‘Inside Cecot’ será transmitida em uma edição futura”, disse o canal. A decisão da emissora gerou discordâncias internas e o assunto vem repercutindo na imprensa americana.
A CBS é propriedade da Paramount Skydance. E a Skydance Media, dirigida por David Ellison — filho do apoiador de longa data de Trump, Larry Ellison — adquiriu a Paramount em agosto.
Diante da posição da CBS de não colocar a matéria no ar, Sharyn Alfonsi, correspondente da emissora, escreveu um email para os colegas jornalistas do “60 Minutes”.
“Nossa reportagem foi analisada cinco vezes e aprovada pelos advogados da CBS e pelo departamento de Padrões e Práticas”, escreveu Alfonsi na nota, cuja cópia foi obtida pelo Times. “Ela é factualmente correta. Na minha opinião, retirá-la agora, depois de todas as rigorosas verificações internas terem sido feitas, não é uma decisão editorial, é uma decisão política.”
Nesta segunda-feira 22, a editora-chefe da CBS, Bari Weiss, durante uma reunião editorial interna, reagiu com um tom claramente irritado diante do email de Alfonsi.
Uma transcrição da mensagem de Weiss foi fornecida pela CBS News.
“A única redação que me interessa dirigir é aquela em que podemos ter divergências controversas sobre as questões editoriais mais espinhosas com respeito e, fundamentalmente, onde assumimos a melhor intenção de nossos colegas”, disse Weiss. “Qualquer outra coisa é completamente inaceitável.”
Weiss, que assumiu o posto da CBS em outubro, disse que a decisão foi dela.
Ela disse que, embora a matéria de Alfonsi apresentasse um testemunho poderoso sobre a tortura na prisão Cecot, o The New York Times e outros veículos já haviam feito um trabalho semelhante. E que a matéria da correspondente não “levava a história adiante”.
“Para publicar uma matéria sobre esse assunto dois meses depois, precisamos fazer mais”, disse ela. “E este é o ‘60 Minutes’. Precisamos conseguir que os principais envolvidos se pronunciem oficialmente e diante das câmeras.”
A correspondente da CBS afirmou ter tentado por diversas vezes uma posição do governo americano, mas nunca teve resposta.
“Se a recusa do governo em participar se tornar um motivo válido para cancelar uma matéria isso significa que estamos entregando “um ‘botão de emergência’ para qualquer reportagem que considerem inconveniente”, afirmou Alfonsi, em seu email aos colegas.
O jornal The New York Times, afirmou, citando fontes que acompanharam as discussões, que Bari Weiss levantou várias preocupações com os produtores do “60 Minutes” sobre a matéria de Alfonsi e solicitou que uma quantidade substancial de material novo fosse adicionada.
Ainda segundo o jornal, ala sugeriu adicionar uma entrevista com o funcionário da Casa Branca Stephen Miller ou outra figura sênior do governo Trump.
Outro ponto que, segundo a apuração do The New York Times, desagradou Weiss foi o uso do termo “migrantes” para descrever os venezuelanos deportados para a megaprisão. O argumento é se esse seria mesmo o termo correto, uma vez que o presos deportados estavam ilegalmente nos EUA, acrescentou a reportagem.
O Cecot é uma megaprisão em El Salvador para onde os EUA enviaram centenas de migrantes, em sua maioria venezuelanos, sem julgamento. Ela foi condenada por grupos de direitos humanos por suas condições severas.
Donald Trump já fez diversas críticas ao “60 Minutes”. Ele se recusou a conceder uma entrevista ao programa antes das eleições de 2024 e logo depois processou a emissora pela forma como foi conduzida uma entrevista com a então candidata à presidência que rivalizada com Trump, Kamala Harris.
Este ano, no entanto, Trump – com quem a emissora acabou fechando um acordo judicial – concedeu uma entrevista ao canal, que foi exibida em 2 de novembro.
Fonte ==> Exame