Se você der um cristal a um chimpanzé, ele pode não devolver.
Pesquisadores aprenderam isso da pior maneira. Eles deram quartzo, calcita e outros tipos de cristais a chimpanzés em um centro de reabilitação. Os primatas reagiram com grande interesse, e os pesquisadores acabaram precisando trocar grandes quantidades de bananas e iogurte para recuperar o maior cristal. Outros nunca foram recuperados.
O estudo sobre chimpanzés e cristais, publicado na quarta-feira (4) na revista Frontiers in Psychology, foi uma tentativa de entender o que há nos minerais cintilantes que é tão atraente para os primos mais próximos dos primatas: nós. O estudo foi liderado por Juan Manuel García-Ruiz, cristalógrafo do Centro Internacional de Física de Donostia, na Espanha.
García-Ruiz passou a maior parte de sua carreira investigando as propriedades materiais dos cristais, bem como suas aplicações em pesquisas. Mas ele também está muito interessado no “impacto dos cristais na história da arte e na história da mente”, disse. Descobertas de quartzo e outros cristais em sítios arqueológicos sugerem que predecessores pré-históricos dos humanos coletavam essas pedras há pelo menos 700 mil anos. Pesquisadores não encontraram evidências de que elas tenham sido transformadas em ferramentas, ornamentos ou qualquer outra coisa útil.
Humanos contemporâneos também adoram cristais e às vezes atribuem a eles propriedades curativas ou sobrenaturais. “Alguns colegas dizem: ‘Temos que dizer às pessoas que isso é completamente ridículo'”, disse García-Ruiz. “Mas para mim, o importante é dizer às pessoas por que essa crença existe.”
Para descobrir o que atraía nossos ancestrais aos cristais, García-Ruiz decidiu mostrar alguns a chimpanzés. Ele e sua equipe trabalharam com dois grupos alojados separadamente na Rainfer Fundación Chimpatía, perto de Madri, que ajuda chimpanzés resgatados de situações difíceis.
Para o primeiro experimento, os pesquisadores usaram dois pedestais instalados nos pátios dos chimpanzés. Em um, colocaram um cristal de quartzo multifacetado com cerca de 30 centímetros de altura, e no outro, uma rocha de arenito de dimensões semelhantes. (García-Ruiz chamou esse experimento de “O Monólito”, inspirado no objeto em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.)
Os chimpanzés ficaram loucos pelo cristal.
Em um dos pátios, eles se aproximaram repetidamente do monólito até que a fêmea alfa, Manuela, o arrancou do pedestal. Depois disso, o cristal raramente saiu do campo de visão do grupo, enquanto eles ignoraram amplamente a rocha de arenito. Um vídeo mostra um chimpanzé macho de 50 anos chamado Yvan o carregando enquanto escala e come repolho, passando-o entre as mãos e os pés com grande desenvoltura.
No outro pátio, o experimento foi interrompido depois que uma chimpanzé chamada Sandy imediatamente pegou os dois itens de seus pedestais e os levou para os dormitórios, onde os cuidadores humanos geralmente não vão.
O outro grupo também acabou levando o quartzo para o dormitório. Recuperá-lo exigiu as já mencionadas negociações prolongadas com os chimpanzés, o que sugere que os animais “valorizam o cristal”, disse García-Ruiz.
Para o segundo experimento, os pesquisadores colocaram pilhas de pedrinhas nos jardins, com alguns pequenos cristais incorporados em cada uma. Os chimpanzés imediatamente separaram os cristais das pilhas.
Então os carregaram na boca, giraram-nos na luz e os seguraram diante dos olhos como garimpeiros de antigamente. Quando os pesquisadores finalmente instalaram câmeras dentro dos dormitórios dos chimpanzés, viram que Yvan ainda segurava um enquanto se preparava para relaxar em seu ninho de feno. (A equipe de pesquisa não conseguiu encontrar ou recuperar muitos desses cristais menores, disse García-Ruiz.)
Com base em seus dados e observações, os pesquisadores propuseram que os chimpanzés foram atraídos pela transparência e forma dos cristais.
Eles também pareciam estar experimentando “algo além da curiosidade”, disse García-Ruiz. Observá-los deu peso a uma de suas teorias mais especulativas: ele acredita que os cristais, como “o único objeto euclidiano na natureza”, podem ter ajudado os humanos a inventar a geometria e desbloquear o pensamento abstrato.
Especialistas externos foram mais cautelosos na interpretação dos resultados.
Os chimpanzés do estudo “aparentemente compartilham nossa própria fascinação por objetos brilhantes e translúcidos”, disse Michael Haslam, arqueólogo do Historic Environment Scotland que estuda como os animais usam ferramentas. Mas o histórico desses chimpanzés específicos como animais resgatados, junto com o pequeno tamanho da amostra do estudo, torna difícil generalizar além disso.
E tirar conclusões mais amplas sobre exatamente por que os chimpanzés gostam de cristais —e se essas características também atraíam os ancestrais hominídeos dos humanos, ou influenciaram nossos padrões de pensamento— vai “alguns passos longe demais”, disse Haslam.
Ele acrescentou que outros animais, como os pássaros-cetim, também são atraídos por objetos cristalinos.
“Embora a atração seja clara, a motivação subjacente não é”, disse.
García-Ruiz espera realizar experimentos semelhantes com chimpanzés selvagens. Ao contrário daqueles criados entre humanos, “eles não têm ideia sobre poliedros e geometria euclidiana”, disse. “Acho que isso será ainda mais interessante.”
Fonte ==> Folha SP – TEC