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China atrai cientistas com incentivos e pragmatismo – 08/01/2026 – Ciência

Homem de casaco cinza caminha segurando celular em frente a muro de tijolos vermelhos com texto em chinês dourado. Ambiente urbano com árvores sem folhas ao fundo.

Universidades chinesas estão conseguindo atrair cientistas graças a iniciativas apoiadas pelo Estado, que oferecem contratações rápidas e subsídios generosos para especialistas em áreas estratégicas.

Pesquisadores afirmaram à AFP que o país está se tornando um destino popular até mesmo para quem está em início de carreira.

“Você ouve falar desses laboratórios avançados incríveis e que o governo fornece recursos para áreas como inteligência artificial e pesquisa quântica”, afirma o tunisiano Mejed Jebali, doutorando em IA na Universidade Jiao Tong de Xangai. “A amplitude para a pesquisa e a rapidez com que as coisas são construídas são realmente impressionantes.”

Os incentivos estatais costumam ser direcionados a pesquisadores de destaque nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, em inglês), que poderiam ajudar Pequim a alcançar seu objetivo de se tornar líder mundial em inovação.

Não existe uma base de dados oficial de cientistas estrangeiros ou repatriados que se mudaram para a China, mas ao menos 20 especialistas de destaque em STEM o fizeram no último ano, segundo anúncios de universidades e publicações pessoais analisados pela AFP.

Entre eles estão o especialista em câncer Feng Gensheng, que deixou um cargo permanente na Universidade da Califórnia (Estados Unidos) para se juntar ao Laboratório da Baía de Shenzhen, e o médico alemão Roland Eils, que agora trabalha em regime parcial na Universidade Fudan de Xangai.

“Parece que um número consideravelmente maior de cientistas estrangeiros, em particular os de origem chinesa, voltou a trabalhar na China em comparação com cerca de dez anos atrás”, afirmou Futao Huang, professor da Universidade de Hiroshima (Japão).

Mais financiamento, recursos e apoio

Acadêmicos também citaram como atrativo o acesso a indústrias em rápido desenvolvimento no enorme mercado chinês.

Lingling Zhang, que ingressou na China Europe International Business School após duas décadas nos EUA, disse à AFP que se sentiu atraída pela proposta de uma pesquisa mais “pragmática”.

O ritmo do desenvolvimento industrial oferece mais oportunidades para uma pesquisa com base acadêmica, mas orientada à aplicação, segundo um cientista de materiais que se transferiu de uma universidade europeia para a China.

Ainda de acordo com esse cientista, que pediu para não ter seu nome revelado, a qualidade dos artigos produzidos hoje pelas principais instituições chinesas não é inferior à das principais universidades americanas ou europeias e, em algumas áreas, é muito competitiva ou até líder.

A reputação da China em relação à sua capacidade acadêmica em muitos campos tornou-se inegável. Quatro das cinco principais instituições de pesquisa em ciências naturais e saúde em 2025 eram chinesas, conforme um índice da revista Nature.

“Eu não teria feito isso há 15 anos”, afirmou Jason Chapman, especialista mundial em migração de insetos, sobre sua mudança recente para o país asiático. Mas, nos últimos cinco anos, o financiamento, os recursos e o apoio mudaram o cálculo.

Lacuna cultural

Para acadêmicos de ascendência chinesa que trabalham nos EUA, existem fatores que os incentivam a sair, segundo Huang. “O endurecimento das normas de segurança em pesquisa, a vigilância de vistos e as sensibilidades políticas nos Estados Unidos criaram incerteza.”

Um estudo de 2023 revelou que, após a ordem dada pelo presidente Donald Trump em 2018, durante seu primeiro governo, para investigar possíveis espiões chineses no meio acadêmico, as saídas de cientistas nascidos na China aumentaram 75%.

No entanto, ainda existem desafios para quem se transfere para a China.

Huang apontou preocupações com a liberdade e a autonomia acadêmicas e “as incertezas geopolíticas que influenciam a percepção internacional e as decisões de mobilidade”.

A China controla de forma rigorosa o fluxo de informações sensíveis. Por exemplo, um cientista naturalista europeu contou à AFP que não podia colaborar com institutos chineses ligados à pesquisa militar devido à possível sensibilidade política.

Os entrevistados também descreveram diferenças culturais.

O cientista especializado em materiais afirmou que teve dificuldade para se adaptar ao ambiente acadêmico chinês, que enfatiza as relações pessoais e a interação social. Ainda assim, na sua avaliação, o país é uma boa opção para jovens motivados.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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