Europa, lua de Júpiter, é um dos lugares do Sistema Solar vistos como promissores na busca por vida extraterrestre. Mas uma pesquisa que saiu nesta terça (6) na revista Nature Communications pôs em dúvida se de fato o satélite, no qual há um oceano escondido sob uma camada de gelo, deveria estar nessa lista.
O estudo avaliou o potencial do oceano para as atividades tectônica e vulcânica, que no nosso planeta facilitam as interações entre rochas e água do mar que geram nutrientes essenciais e energia química para a vida. Após modelarem as condições de Europa, os pesquisadores concluíram que provavelmente o fundo rochoso oceânico é mecanicamente forte demais para permitir tal atividade.
Entre os fatores considerados na avaliação estão o tamanho da lua, a composição de seu núcleo rochoso e as forças gravitacionais exercidas por Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.
“Na Terra, a atividade tectônica expõe rocha fresca ao ambiente onde reações químicas, principalmente envolvendo água, geram produtos químicos, como metano, que a vida microbiana pode utilizar”, disse o principal autor do estudo, Paul Byrne, da Universidade de Washington em St. Louis (Estados Unidos). “Sem essa atividade, essas reações são mais difíceis de estabelecer e manter, tornando o fundo do mar de Europa um ambiente desafiador para a vida”, acrescentou o cientista planetário.
A vida pode ter surgido na Terra bilhões de anos atrás no ambiente dinâmico ao redor das fontes hidrotermais do fundo do mar. Europa, porém, pode não apresentar essas características.
“Com base em nossas descobertas, o fundo do mar provavelmente não conteria grandes formações tectônicas, como longas cordilheiras ou profundas depressões. Provavelmente não haveria vulcões submarinos ou montes submarinos, e não teríamos nenhuma atividade hidrotermal. Dito isso, espero ser corrigido um dia”, disse o geólogo e coautor do estudo Christian Klimczak, da Universidade da Geórgia (EUA).
Europa é a quarta maior das 95 luas oficialmente reconhecidas de Júpiter. Seu diâmetro aproximado é de 3.100 quilômetros, ligeiramente menor que a Lua da Terra e praticamente um quarto em relação ao do nosso planeta.
Acredita-se que sua camada de gelo tenha entre 15 e 25 quilômetros de espessura, cobrindo um oceano com profundidade de 60 a 150 quilômetros. O oceano de água líquida salgada sob essa camada pode conter o dobro da água presente nos oceanos da Terra.
A lua de Júpiter reúne características que sugerem potencial habitabilidade. “Existem três fatores principais considerados essenciais para sustentar a vida: água líquida, química orgânica e energia”, afirmou Byrne.
“O oceano subsuperficial cumpre o primeiro requisito. Já identificamos produtos químicos orgânicos na camada externa de gelo dessa lua, e pode muito bem haver tais produtos químicos dentro do oceano. Esse é o segundo requisito. E a órbita de Europa significa que Júpiter impulsiona o aquecimento das marés dentro da lua, o que é o requisito três”, explicou o cientista planetário.
Em outubro de 2024, a Nasa lançou uma missão para investigar se Europa tem condições para sustentar vida. A ideia é que a espaçonave batizada de Europa Clipper realize dezenas de sobrevoos próximos à lua a partir de 2031.
“Embora a geologia opere de maneira semelhante em todo o Sistema Solar, cada corpo planetário que exploramos revelou ter algum processo único. Considerando o que sabemos sobre Europa, ela ainda é o melhor lugar para procurar vida extraterrestre”, disse Klimczak.
A atração gravitacional de Júpiter afeta suas luas de maneiras distintas. Io é o corpo com maior atividade vulcânica do Sistema Solar. A gravidade de Júpiter, combinada com as forças gravitacionais de outras luas, cria fortes forças de maré em Io, gerando fricção interna e calor. Mas Europa orbita Júpiter a uma distância muito maior do que Io.
“O efeito desse aquecimento de maré diminui rapidamente com a distância, então embora haja aquecimento de maré suficiente para impedir que o oceano de Europa congele completamente, de acordo com nossos cálculos, não há nem de perto o suficiente para deformar tectonicamente o fundo do oceano. Então, em resumo, provavelmente não está acontecendo no interior de Europa o tipo de coisa que ocorre em Io”, afirmou Byrne.
O novo estudo restringiu-se às condições atuais de Europa. “Há razões para pensar que Europa pode ter sido muito mais geologicamente ativa do que é hoje, embora há alguns bilhões de anos. Então, talvez por um tempo, esse mundo não era apenas habitável, mas de fato habitado, antes que essas condições mudassem e a energia química para a vida se esgotasse.”
Fonte ==> Folha SP – TEC