Dentro de uma colmeia, as abelhas são talentosas construtoras —industriosas, colaborativas e um pouco misteriosas.
Um novo estudo, publicado na semana passada na revista PLOS Biology, esclarece como elas trabalham juntas para fazer favos de mel, mesmo quando começam com uma fundação difícil.
As células do favo são estruturas de cera que armazenam mel dentro de uma colmeia. Elas também são usadas como berçários. As células são organizadas em um mosaico hexagonal: um padrão geométrico de unidades de seis lados sem lacunas ou sobreposições, permitindo que as abelhas armazenem a maior quantidade de mel com a menor quantidade de cera.
“Estamos tentando resolver essas questões criando quebra-cabeças impossíveis para as abelhas”, disse Orit Peleg, uma autora do estudo e professora associada de ciência da computação no Instituto BioFrontiers da Universidade do Colorado em Boulder.
Há muito tempo se sabe que as abelhas são excelentes construtoras, disse Golnar Gharooni-Fard, pesquisadora de pós-doutorado em matemática aplicada na Universidade Harvard e autora principal do estudo. “Também sabemos que as abelhas nem sempre têm o luxo de construir em superfícies planas”, acrescentou.
Então os pesquisadores decidiram dificultar as coisas.
Eles imprimiram em 3D modelos de bases de favos. Mas algumas das células eram um pouco pequenas demais, e algumas tinham células que eram grandes demais. As abelhas administraram essas anomalias construindo suas próprias células de cera, criativamente, por cima. E em muitos casos, os pesquisadores descobriram que as abordagens das abelhas eram notavelmente consistentes em vários testes.
Quando confrontadas com células impressas que eram um pouco menores que as células naturais médias, as abelhas pareciam concordar que deveriam usar cera para tapar algumas partes dos buracos impressos em 3D, deixando outros abertos. Os pesquisadores chamaram essa técnica de “fusão”.
Quando as células feitas pelo homem eram maiores —até duas vezes maiores que o tamanho ideal— as abelhas replicaram o padrão impresso em 3D, mas construíram suas células de cera em um ângulo. Elas fizeram isso, dizem os pesquisadores, possivelmente para garantir que o mel não caísse. Os pesquisadores chamaram essa tática de “inclinação”.
E quando as células impressas em 3D eram três vezes maiores que o ideal, as abelhas usaram uma técnica que os pesquisadores chamaram de “camadas”. Cada um dos seis cantos dos hexágonos impressos em 3D tornou-se a base para uma única célula de cera, deixando espaço para uma sétima no meio.
Michael Smith, especialista em abelhas e professor de biologia da Universidade de Auburn, que não esteve envolvido na pesquisa, chamou o estudo de “impressionante”. Ele disse que ainda há questões não respondidas sobre como os insetos se coordenam para alcançar suas proezas de construção.
Para aqueles de nós que tiveram dificuldades nas aulas de geometria, as abelhas podem parecer inteligentes. Mas é difícil diferenciar entre processos cognitivos e regras evoluídas. Em outras palavras, as abelhas tiveram eras para se tornarem excelentes construtoras de hexágonos —tão boas, talvez, que o que parece para nós um plano coordenado é na verdade apenas um conjunto de comportamentos enraizados.
“A analogia que dou nas minhas aulas de comportamento animal é: se você quisesse entender se os castores são arquitetos, teria que ver se eles poderiam construir uma ponte”, disse Smith, “não se eles poderiam construir uma barragem”.
Independentemente de suas habilidades cognitivas, as habilidades das abelhas têm aplicações além do campo da biologia, disse Francisco López Jiménez, coautor do estudo e professor associado de engenharia aeroespacial na Universidade do Colorado em Boulder.
“Podemos aprender um pouco sobre como elas distribuem o trabalho?”, perguntou ele. “Como elas se revezam?”
As respostas a essas perguntas, disse López Jiménez, poderiam informar pesquisas sobre tecnologias humanas como programação de computadores ou robótica.
Também poderia haver uma conexão com a neurociência. “Há uma linha de pensamento realmente interessante que vê abelhas individuais como neurônios”, disse Peleg, “e até usa modelos matemáticos da neurociência para explicar como as abelhas chegam a decisões coletivas.”
Todos os autores concordaram que mais pesquisas são necessárias para descobrir o que realmente está acontecendo dentro dessa mente coletiva.
Fonte ==> Folha SP – TEC